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Novas aventuras espaciais. E uma delas de fato vai além da "fronteira final"

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/11/2012 16h15, última modificação 20/11/2012 10h58

Pouco mais de um ano após a coletânea Space Opera da Editora Draco, , uma segunda antologia de contos de ficção científica sobre aventuras espaciais é lançada pela mesma editora e organizadores, Hugo Vera e Larissa Caruso, com o título Space Opera – Jornadas Inimagináveis em Uma Galáxia Não Muito Distante ou, mais informalmente, Space Opera 2 (384 páginas, R$ 59,90).

O primeiro volume da série se prendia mais estritamente à concepção clássica do subgênero “Space Opera”, ou seja, tramas envolvendo batalhas de naves, exploração de planetas distantes e outras aventuras de ação e suspense em escala cósmica. Este segundo livro, embora mantenha o pressuposto de um ambiente de viagens interplanetárias rotineiras e tecnologia avançada, abarca uma maior diversidade de temas e estilos e possibilitou um pouco mais de ousadia. A qualidade é também mais variada, incluindo alguns textos apenas medianos e outros muito instigantes.

Entre estes, merece destaque especial o último, No Vácuo Você Pode Ouvir o Espaço Gritar, de Carlos Orsi. Embora deixe um pouco a desejar a desproporcionalidade entre a grandeza do tema e a superficialidade de alguns personagens decisivos, é o conto intelectualmente mais instigante do livro por ultrapassar os limites da ficção científica espacial dos anos 1930 aos 1970, que continua a inspirar a maior parte da produção brasileira e se atualizar ao fazer amplo uso da temática da New Space Opera, uma vertente do subgênero desenvolvido a partir dos anos 1980 sob a influência do subgênero cyberpunk, da engenharia genética, da informática, da nanotecnologia e de novas concepções físicas e cosmológicas. Trata-se de celebrar ou questionar não a “vitória (ou derrota) do Homem”, os possíveis resultados da exploração e conquista da galáxia pela espécie humana, mas explorar outra e mais nova "fronteira final", como dizia a abertura de Jornada nas Estrelas, da superação da noção tradicional de humanidade por formas de vida futuras que transcendem o conceito tradicional de humanidade ao incorporar elementos cibernéticos e mutações biológicas a ponto de se tornar mais estranhas a nós que a maioria dos alienígenas da ficção científica do século XX. Amostra:

Cabeça trabalhou depressa.

Usando os maçaricos de precisão, os sensores e os bisturis de diamante que tinha embutidos em suas mil patas e quinhentas bocas, aplicando os gabaritos arquivados em sua memória permanente, atacou cada um dos fragmentos da rocha espacial que usara para chamar a atenção dos ceidwadols, devorando molécula e metal indistintamente.

Seu corpo segmentado foi reconstruído sob a forma de uma armação reforçada capaz de mantê-lo ereto e móvel na esmagadora gravidade de 3,7 m/s² que reinava a bordo da Beldurgabe.

Infelizmente, a maior parte dos sistemas de síntese bioquímica ficava a abordo da Cauda, então ele não tinha como fazer crescer ossos e músculos adequados rápido o bastante.

Mesmo assim, a criatura que o is-arweinydd Järvinen recepcionou na escotilha de atividade extraveicular parecia surpreendentemente humana.

Não sendo de todo ingênuo quanto à psicologia dos ceidwadols, Cabeça optara por seguir, o mais de perto possível, o layout do gênero homo, a fim de deixar seus anfitriões mais à vontade.

O corpo que decidira construir tinha contorno feminino. O volume extra dos “seios” estava sendo usado para acomodar sistemas redundantes de inteligência e sensoriamento. Já o dos “quadris”, para encaixar estruturas mais robustas de suporte, além de servomotores extras.

A “pele” era levemente morena, embora emitisse um brilho prateado quando iluminada sob certos ângulos. Não havia pelos ou cabelos. Os olhos, muitifacetados como os de um inseto, não tinham íris.

A Alma de um Mundo, de Roberto de Sousa Causo, que abre a coletânea, é uma Space Opera de temática mais tradicional, embora abordada de uma perspectiva nacionalista e brasileira. Continua as aventuras de Jonas Peregrino, herói espacial e militar de uma Esquadra Latino-Americana da Esfera que é uma espécie de Capitão Kirk ou Perry Rhodan sul-matogrossense. Desta vez, trata-se de uma  operação de resgate de alienígenas aliados de um planeta sitiado por Minutemen, uma força de mercenários recrutada num planeta colonizado por libertarianos aparentemente descendentes de anglo-saxões dos EUA, mas a serviço de uma "Aliança Transatlântico-Pacífico", rival espacial dos latino-americanos. Causa espécie, às vezes, a contraposição de soldados heroicos e abnegados a políticos civis corruptos, que parece remeter à mentalidade de 1964, mas a intriga que toma a maior parte do enredo é inteligente e bem construída. Muita informação sobre o cenário político é despejada no leitor, mas é relevante e oportuna para a trama o bastante para ser interessante. Os alienígenas são bem caracterizados enquanto tais e a especulação científica e tecnológica é em geral consistente, salvo por um peculiar anacronismo: essa avançadíssima civilização espacial envia objetos por e-mail, por assim dizer, usando um “nanofabrickor” (como uma impressora 3D muito avançada), mas ele é usado para transmitir uma carta envelopada em papel, um livro de capa dura e ordens lacradas do comando militar (só faltou virem manuscritas em pergaminho), que deve ser conferida contra códigos de segurança guardados num cofre. Amostra:

O nanofabrickor emitiu um aviso sonoro. Peregrino apanhou o envelope com a carta de Cristina Feldman. Retirou a folha textura de papel de algas assinada pela mulher que ele havia conhecido há três meses, e que tentara convencê-lo a se meter na campanha do governador estelar Esteves Mangabeira. A última vez que ele vira a figura curvilínea de Cristina fora em um holograma no escritório de Túlio no QG, quando ela se desculpara por ter participado no esquema sujo de Mangabeira.

Havia mais desculpas na folha de papel e ao ler as linhas restantes, Peregrino deu-se conta de que ainda sentia muitas dores pelo corpo. Cristina Feldman o fez sentir outras dores. Ela informava, com subterfúgios, que havia se unido à rede de inteligência que Túlio mantinha espalhada pela galáxia. A pedido do almirante, localizara um exemplar do livro que vinha junto com a carta.

Peregrino notou que o compartimento de saída do nanofabrickor ainda estava aberto. Havia um livro de capa-dura lá dentro. Apanhou-o. A quarta-capa dizia que era uma “visão de dentro” dos Minutemen de Eta2-Hydri na Zona 3, a 220 anos-luz da Terra. Uma casta militar, produto de uma colônia estabelecida pela Aliança Transatlântico-Pacífica, com que mantinham, apesar de se afirmarem independentes, laços muito estreitos. Seus quadros militares eram compostos integralmente de ciborgues.

O livro era Os Últimos Homens Livres da Galáxia? de Levinson Parker, ex-Minuteman e apóstata da sua ideologia de libertarianismo extremo. Se Cristina Feldman – uma acadêmica de relevo em Épsilon Crucis – tivera de procurar o livro, significava que ele não estava nas redes abertas.

Em Obliterati, de Fábio Fernandes, a resistência desesperada dos últimos humanos que veem seus próximos desaparecerem nos ataques de misteriosos e invisíveis alienígenas serve de pretexto a uma narrativa de tom psicológico. O protagonista reflete em primeira pessoa sobre a vida e a estranheza da situação em anotações não lineares, fragmentadas, elípticas e que soam como rabiscadas num diário. Cabe ao leitor o trabalho de montar o quebra-cabeça. Enquanto se enfatizam as impressões subjetivas, o cenário externo permanece um tanto nebuloso e pouco consistente. A civilização é suficientemente avançada para permitir viagens interestelares, teletransporte, bolsões dimensionais e comunicação e informação telepáticas por meio de drogas produzidas por fungos cultivados, mas não sabe lidar com doenças banais e traumas psicológicos quando eles são convenientes para efeitos dramáticos. Amostra:

A bolha de tempo nulo se forma e se expande completamente ao nosso redor uma fração de segundo antes da obliteração da nave.

Então, chega a escuridão. É como se uma placenta de negror absoluto nos envolvesse; o ruído do dispositivo ao qual estamos todos ligados como bebês fica ainda mais impossível de ouvir, e o frio é tão intenso que parece que acabamos de ser atirados no meio do vácuo ao invés de ter escapado por uma janela n-dimensional.

Mas provavelmente isso não vai durar muito tempo. Se os protocolos da Mère estiverem funcionando com eficiência total, então faremos uma transição até o Refúgio mais próximo, eí estaremos de fato seguros.

Mas agora eu estou nu e indefeso numa bolha fora da realidade física.

Tudo por Causa Dela, de Larissa Caruso, co-organizadora da coletânea, é uma história de tom romântico, insatisfatória como aventura de ficção científica. Um cientista alienígena apaixonado por uma misteriosa e aparentemente humana Dana sonha com liberdade enquanto tenta escapar a uma ditadura galáctica sem se comprometer com violentos rebeldes anarquistas. Um ponto fraco é a caracterização dos personagens: todos são alienígenas das mais diferentes aparências de uma civilização galáctica avançada, mas pensam, falam e se portam exatamente como humanos. Outro é o cenário político vago e mal desenvolvido, pouco mais que pretexto para repetir o mesmo esquema demasiadas vezes. O protagonista foge, cai em uma esparrela, seu implante cibernético calcula uma baixa probabilidade de sobreviver, mas escapa assim mesmo para cair em outra arapuca e assim por diante.

Seria esse o destino de Dana? Juntar-se a um grupo extremista e, com a ajuda de Alvhert, transformar uma sociedade organizada e, independente de qualquer coisa, pacífica em um universo caótico e destrutivo?

Não. Ele não queria isso. Tudo o que queria era que a galáxia novamente saboreasse a liberdade que um dia tivera. Gostaria que esse controle abusivo e absoluto fosse rompido, oferecendo novamente o livre arbítrio aqueles que viviam sob o comando da Confederação.

Franziu os lábios, decidindo qual seria seu próximo passo.

Utilizando o implante neural, examinou as alternativas de fuga que começaram a aparecer em sua visão. Suas opções não eram boas. A melhor probabilidade de escapar que possuía – com 17,87% de chances de sucesso – era se render e aguardar por opções futuras.

Jowjow, Jungermaid e A Deusa de Luz, de Tibor Moricz, é um faroeste com verniz de ficção científica, divertido para o leitor cuja capacidade de suspensão de descrença e senso de humor puderem aceitar um planeta distante com caubóis a cavalo (cibernético), saloons, nativos tribais semelhantes a apaches, uma bela princesa “nativa” com poderes místicos e algumas espaçonaves e comércio interestelar como pano de fundo. Aventura ágil e bem-humorada com personagens improváveis e inescrupulosos mas sedutores, do tipo que em quadrinhos cairia muito bem na saudosa Métal Hurlant ou na sucessora estadunidense Heavy Metal. Amostra:

Jowjow prosseguiu na marcha até chegar diante do Saloon. Havia lá dois cavalos presos diante de um cocho com água. A Towaneh acompanhara-o sem protestos e deu sinais de alívio quando pararam. Aproximou-se cautelosa do cavalo e do cavaleiro que desmontava e se sentou na beirada do alpendre. Jowjow puxou a corda pondo-a de pé e apontou-lhe o chão ao lado do cavalo, onde ela se sentou humilhada.

– Melhor assim –disse ele para que pudessem ouvi-lo, ajeitando o cinturão. Então entrou no Saloon.

Não estava muito cheio. Não mais que seis mesas, cinco delas desocupadas. Diante do balcão, três homens debruçados. O barman – um homem com aparência truculenta, densa barba negra, olhos miúdos e lábios rachados – olhava para Jowjow como se visse uma aparição.

– Jowjow! – Exclamou o barman, para sua surpresa.

Ele estranhou o cumprimento, franziu o cenho e se aproximou devagar. Os três homens se voltaram em sua direção. Os dois Nictianos que ocupvam uma das mesas lhe lançaram olhares inamistosos. Não precisou passar pelo esforço de inquirir o homem para saber de onde se conheciam. Lembrou-se dele, afinal. Era o cozinheiro de sua companhia na guerra com os Towaneh, nas fileiras da Corporação Betelgeuse.

Rainha das Estrelas –Dias de Sangue na Área Vermelha, de Octavio Aragão, é um conto escrito a partir de um cenário originalmente concebido como um projeto para quadrinhos em parceria com Osmarco Valladão e a transposição para a linguagem literária deixou a desejar. A trama é um tanto artificial: a perseguição de uma dinastia antiquíssima e tirânica força um pequeno grupo de militares, monjas e piratas que se odiavam e nada tinham em comum ao se unir para tentar derrubá-la, com quase nenhuma participação do povo supostamente afetado pela tirania. O resultado é uma história de ação frenética e violência extrema que dá poucas oportunidades para refletir sobre o desenvolvimento da situação e se interessar pelos personagens bizarros e demasiadamente numerosos. Deixa a sensação de superficialidade de um típico filme de ação hollywoodiano, sem o encanto do espetáculo visual. Talvez funcione melhor nos quadrinhos, cuja linguagem visual permitiria poupar descrições e explorar melhor as expressões de climas e sentimentos. Amostra:

Era a hora de encarar o quarto homem. Ockham jogou-se sobre o balcão apontando as armas, mas não estava mais lá. Por causa da distração, o atacante ferido pela lâmina da Luva quase o acertou à queima roupa. Ockham girou sobre a perna ruim e escorregou no próprio sangue, mas ainda assim atingiu o agressor com um tiro no que atravessou o tronco. Isso é munição profissional, companheiro.

Caído, deu com o homem da mesa retirando das costas do pistoleiro do Grupo um punhal. A lâmina opaca sugeria vidro negro. A luz do ambiente revelou o rosto e Ockham recordou as antigas holografias de um dos inimigos da Coroa.

Singapura Sling. Magro, quase albino, trajando um colete térmico mais sujo que as calças de um açougueiro, obedecendo à tradição pirata de responder pelo nome de um drink esquecido, o mais impressionante nele era a armação metálica que cobria os olhos brancos. Os óculos que continham pupilas capazes de enxergar em espectros além do alcance estavam conectados aos nervos ópticos por um soquete implantado no crânio. Emitiam um zunido ao buscar o foco.

– Você é surpreendente, capacho da Coroa – disse Sling – Todos achavam que seria fácil acabar com sua raça, mas resolvi não arriscar.

Viva Muito, Morra Jovem, de Lidia Zuin, é uma história bem contada, mas inserida à força num gênero que não é o seu. Uma mulher, uma entre muitas refugiadas de um povo tribal expulso de sua terra por uma invasão estrangeira que recorrem a todo tipo de expediente para sobreviver no exílio, torna-se amante de um empresário da noite ligado ao submundo de uma metrópole e é desprezada pela filha, que prefere a companhia de jovens baladeiros e dentre eles uma garota em especial. Bem, a rigor, a mulher, a filha e seu povo são alienígenas de uma espécie hermafrodita expulsa por outros alienígenas e a metrópole é habitada por uma terceira espécie alienígena, mas a história funcionaria da mesma exata maneira se todos fossem humanos vivendo em uma grande metrópole de 2012: afetos, baladas, refeições, hábitos, drogas, pornografia e armas são os mesmos, sem elementos especulativos de real importância para a trama. O conto é bom, mas seria ainda melhor e mais tocante se ambientado em São Paulo ou Londres, com referências mais próximas do leitor e sem o transplante artificial para um ambiente alienígena que pouco ou nada acrescentou. Amostra:

A kremikkoviana riu, aplaudindo o esforço e a memória da kapuytiana. Antes das bebidas fazerem efeito, Nikki levou Tsar para a pista de dança, perfurando feixes de luz roxa que se moviam até esverdearem. Esferas amarelas se multiplicavam pelas paredes, recortadas pelos lasers vermelhos vindos de algum canto do clube. Tsar ficou imóvel diante da amiga, que já se esbaldava com os braços para cima, os pés deslizando ao ritmo da música.

– Nikki... – Tsar estendia o braço, tentando chamar a amiga antes que entrasse em transe.

Ela instantaneamente parou de dançar, percebendo que a kapuytiana estava tímida. Havia uma solução. Nikki retirou de dentro do bolso do casaco de plástico verde mais alguns comprimidos. Enfileirou-os na ponta do dedo mecânico, esperando por Tsar, com o braço estendido. A kapuytiana achou graça na proposta, mas também concordava que assim seria mais fácil de ela se deixar levar. Por isso, abocanhou o dedo de Nikki, levando as pílulas para a garganta num movimento de sucção. Mesmo depois da outra já ter ingerido as cápsulas, a kremikkoviana não afastava a digital de seus lábios, pressionando-os até encaixá-los na mão, com o polegar abaixo do queixo de Tsar.

Inferno de Dantès é de Marcelo Galvão, autor conhecido por histórias de ficção científica humorística, e tanto o título do conto quanto o surgimento de uma nave estelar chamada Enfant Terrible no primeiro parágrafo fazem esperar algo no mesmo gênero, mas é um engano. Trata-se de uma aventura espacial de tom sério, original em suas concepções e bem equilibrada na combinação de ação, especulação e desenvolvimento de personagens. Uma potência interestelar disputa com sua rival poderosos artefatos arqueológicos de uma civilização desaparecida e os principais personagens são integrantes de um Corpo de Fuzileiros Xenocientistas a seu serviço. Uma concepção interessante que permite criar personagens de ação que são ao mesmo tempo cientistas capazes de analisar acontecimentos inusitados em linguagem científica (embora um deles acredite no vodu) sem que isso soe artificial. Como aventura e narrativa e como uso engenhoso de especulação tecnológica e científica é o melhor entretenimento da coletânea. Amostra:

Os olhos do xenoarqueólogo ficaram pequenos de desconfiança. Sentindo como se caminhasse em um terreno firme que, de repente, revelava ser areia movediça, Mercuria se curvou sobre a mesa de metal e disse:

– Você quer minha ajuda nesse resgate, mas – ele mostrou as mãos algemadas – o que ganho em troca já que não faço mais parte dos fuzileiros?

Blæk estendeu o dedo indicador e tocou a datasfera. A superfície do dispositivo se agitou e o mapa estelar foi substituído por uma imagem com caracteres alfanuméricos.

– Um acordo. Se realizar a missão com sucesso, sua pena será comutada em um terço.

Dantès Mercuria se encostou de novo na cadeira, o cérebro agitado em calcular quantos anos mais precisaria para cumprir a longa sentença.

Sentença recebida por um crime que não cometeu.

– Basta encostar aqui sua mão para concordar com os termos do acordo. – Blæk girou a esfera na direção do prisioneiro. – É uma chance, Dr. Mercuria, de sair um pouco mais cedo daqui.

Ela tinha razão. Fora dali, poderia voltar a respirar o ar puro do terraformado planeta Marte, sua mundo natal. Voltaria a comer um verdadeiro prato da culinária creole-marciana e participar de uma cerimônia do vodou martien para agradecer aos lwhas pela liberdade adquirida. Reencontraria a família, jogaria hóquei no gelo, até mesmo veria Ursalyn e...

As Filhas de Cassiopeia – A Ofensiva Draconiana, de Hugo Vera, o outro co-organizador da coletânea, é o tema da capa da coletânea. Trata-se de melodrama de 77 páginas tão sobrecarregadas de clichês do cinema e da literatura que o leitor é assaltado pela sensação de déjà vu a cada momento. Uma nave gigantesca confundida pelos heróis com uma lua (bem, asteroide), vilões “draconianos” teatralmente cruéis (e com um interesse inexplicável por mulheres humanas, apesar de serem reptilianos), uma rival invejosa e ciumenta da protagonista, uma órfã miserável que guarda um grande segredo no pingente deixado pela mãe que leva ao pescoço, contrabandistas espaciais, capitães heroicos e sedutores... Tem a originalidade de ter personagens femininas nos papéis principais, mas estas parecem menos mulheres reais do que com fantasias masculinas, de tanto que se insiste em sua eficiência e seus encantos. Curiosamente, apesar de a protagonista Anilleya ter uma alta posição como  “andrômeda”, uma espécie de cardeal da cúria de um Templo de Cassiopeia que é uma espécie de Vaticano dos “mocinhos”, em nenhum momento se mencionam concepções religiosas ou filosóficas, exceto para mencionar que as sacerdotisas são escolhidas “também” por sua beleza, descrita da forma mais convencional (Anilleya, por exemplo, tem “longos cabelos lisos e loiros”). Faltou também mais atenção para a verossimilhança humana e científica. As peripécias incluem uma pobre sem-teto que, ao pegar uma pistola pela primeira vez na vida, enfrenta e derrota um pelotão de homens-lagarto da elite militar do império inimigo; instalações militares de ponta que não têm câmeras de segurança; “hipernêutrons” que transformam seres humanos em poeira sem afetar nada mais (como se partículas subatômicas distinguissem matéria orgânica) e uma bomba que cria do vácuo e sem explicações uma estrela, ou seja, uma fabulosa quantidade de matéria. Amostra:

Após descer do transporte, Anilleya e Stjerne entraram pela área de embarque restrita do espaçoporto de Terra Longínqua. A pupila ainda não havia se acostumado a ver sua mentora sem a tradicional túnica vermelha. Vestia um traje collant inteiriço e preto, que as andrômedas utilizavam em missões espaciais, e que possuía lindos desenhos estilizados em vermelho aos ombros, colo e braços, descendo até a altura dos punhos, trazendo também o brasão do Templo de Cassiopeia ao lado esquerdo do peito. Por ajustar-se em todo o seu corpo, a vestimenta realçava ainda mais seus atributos físicos, tão admirados pelos homens e tão invejados pelas mulheres que por elas passavam. Na altura dos seus 36 anos, Anilleya estava em sua melhor forma. E não era para menos; um de seus rituais matinais era cuidar religiosamente de seu condicionamento físico.

Stjerne sonhava um dia ser tão bela quanto sua mentora, e esse o universo conspirasse a seu favor, utilizaria em missão um traje como aquele, e não o collant azul e grafite destinado às pupilas. Seus pensamentos desanuviaram-se quando Anilleya chamou sua atenção, indicando a presença de Canárian logo adiante, frente ao hangar onde estava estacionada a nave que as levaria a Vlasdávia.

A pupila notou que a andrômeda abriu um largo sorriso ao ir de encontro ao capitão, dando um abraço mais do que fraterno naquele homem. Parecia ser algo mais íntimo, envolvendo um forte sentimento. Tentou conter o sorriso que teimou em surgir no canto de sua boca.

Aldus Canárian era um homem muito bonito. Seu ar galanteador e voz empostada davam-lhe certo charme. Alto e forte, de pele bronzeada e cabelos castanhos penteados para o lado, seus olhos escuros pareciam ter sua atenção totalmente voltada aos movimentos da bela andrômeda, mal notando a presença da pupila, mesmo quando esta fora apresentada.

 

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