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Ficção científica entre o hard e o hardcore

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/06/2012 18h03, última modificação 25/06/2012 18h03

A Guardiã da Memória, de Gerson Lodi-Ribeiro  (R$ 49,90, Editora Draco, 304 págs. – também disponívelem e-book por US$ 9,99 ou R$ 19,99), apresenta-se como um romance de ficção científica erótica. Do programa implícito nessa classificação, o aspecto “ficção científica” é o mais bem realizado. Como romance e como erotismo, deixa mais a desejar.

O universo ficcional do livro é inspirado em grande parte na série Elevação (no original, Uplift) do escritor estadunidense David Brin, nunca publicada no Brasil, embora alguns volumes tenham sido editados em Portugal. Nesse universo, nossa galáxia e suas vizinhas são povoadas por uma civilização formada por inúmeras espécies, cada uma delas foi “elevada” à inteligência e civilização pela ajuda e engenharia genética de uma espécie “padroeira” ou suserana à qual deve lealdade, vassalagem e cem mil anos de servidão.

Com uma única exceção: o Homo sapiens. Nessa série, enquanto a humanidade acredita firmemente ter evoluído naturalmente e por sua própria conta, caso único além dos legendários “progenitores” que iniciaram o processo há um bilhão de anos, os demais a consideram uma espécie “abandonada”, cujos patronos, por qualquer razão, desistiram do processo antes de completá-lo. Nossa espécie é marginalizada, privada de acesso às tecnologias das civilizações mais avançadas e obrigada a desenvolvê-las à sua maneira. Mesmo assim, a humanidade prospera e “eleva”, por sua vez, três outras espécies, os chimpanzés, os golfinhos comuns e os gorilas.

O universo de A Guardiã da Memória tem exatamente o mesmo pano de fundo. A espécie humana é vítima dos mesmos preconceitos e restrições e tem a mesma habilidade em superá-los e surpreender as espécies padroeiras tradicionais com sua criatividade – e até “elevou” os mesmos golfinhos.

Uma diferença é que a série de Brin é uma space opera, uma ficção de aventura espacial tradicional (como, por exemplo, Star Wars e Star Trek), com direito a naves estelares mais velozes que a luz sem explicação muito lógica a não ser que “alteram probabilidades”, enquanto a vida e os valores humanos seguem padrões mais ou menos tradicionais. A maioria dos alienígenas vivem em mundos similares à Terra. Além disso, as histórias se passam num futuro afastado de nós de uns poucos séculos e a humanidade não perdeu contato com a Terra, nem com sua própria história.

Já Lodi-Ribeiro submete-se às normas mais exigentes da hard science fiction, quer dizer, ficção científica bem fundamentada do ponto de vista das ciências naturais (“hard”). Não há naves mais velozes que a luz e as viagens entre sistemas solares levam décadas ou séculos. Por outro lado, os seres humanos (e a maioria dos alienígenas) vivem séculos ou milênios, dispõem de recursos médicos e informáticos cogitados hoje, mas nunca imaginados pela space opera tradicional e isso modifica sua maneira de encarar a vida e as relações sociais. Dá alguns passos na direção do que a ficção científica contemporânea chama de “transumano”: a protagonista usa um traje simbiótico que cura rapidamente seus ferimentos e lhe dá poderes especiais. A trama se passa num futuro tão distante que a humanidade esqueceu seu planeta de origem e sua história (embora nomes e línguas atuais sejam reconhecíveis) e se diferenciou em novas raças ou subespécies às vezes muito diferentes dos humanos de hoje (inclusive, por exemplo, humanos gigantescos e peludos) de maneira que a própria humanidade não tem certeza de ter-se originado de forma natural e espontânea, como gostaria de acreditar.

O cenário é Ahapooka, um planeta extremamente peculiar. Teria sido criado por uma espécie desconhecida, num passado distante, para servir de arapuca e “zoológico” galáctico: os tripulantes de naves de quaisquer origens que pousam lá sofrem uma inexplicável compulsão para abandoná-las e ficarem vivendo nesse planeta. Também sofrem de um bloqueio psicológico que os impede de voar ou tentar deixar esse planeta. Armas deixadas pelos construtores impedem o uso de sondas e satélites e não há ionosfera que permita o uso de rádio e radar para além do horizonte.

A diferença mais importante, porém, é que a série de Brin trata em primeiro lugar de diversidade, ecologia, política e ideologias. A tecnologia é menos tematizada e serve apenas como ferramenta para tornar seu universo concebível. Já no livro de Lodi-Ribeiro, a explicação física e biológica dos pormenores de seu universo passa ao primeiro plano e o aspecto político e ideológico é menos importante, embora sirva para pôr a trama em movimento.

Clara, a protagonista, faz uma narrativa no presente e em primeira pessoa. É neta dos líderes de Rhea, nação humana que tem boas relações com outras nações “monoespecíficas” mas é hostil a um “Império” que une muitas espécies (inclusive a humana) e parece ser o maior Estado de Ahapooka. Ela é também uma agente secreta, encarregada de “resgatar” de um museu do Império um “fóssil” peculiar que poderia provar definitivamente que os humanos evoluíram de maneira natural e espontânea (parece tratar-se de um corpo de chimpanzé). Sua equipe fracassa e ela é obrigada a fugir às pressas, sendo resgatada pela única espécie do planeta capaz de voar (por ter naturalmente essa habilidade) e levada a um navio gigante tripulado por seres semelhantes a caranguejos, que são todos do sexo feminino. Ali ela se encontra com Genteel, outro fugitivo do Império que é um “renato”, ser vagamente semelhante a um centauro, mas com antenas, olhos na ponta de bulbos e seis tentáculos em vez de braços.

Não deve ser spoiler revelar que Clara e Genteel lutam juntos contra certos perigos a bordo do supernavio Espumas Flutuantes e têm uma relação erótica, pois esse é o núcleo do livro. Ou deveria ser: é fácil se esquecer disso, de tantas que são as digressões para despejar informações sobre a história, geografia e política de Ahapooka, a biologia das espécies que o habitam, sua tecnologia naval e militar, o passado de Clara e a vida em outras partes do planeta, apresentadas por meio de longos diálogos, reflexões e reminiscências da protagonista.

Quando se aproxima do envolvimento, Clara se estende em pesquisas e reflexões sobre a biologia evolutiva de humanos e “renatos”, em vez de se perguntar sobre suas próprias emoções ou demonstrá-las de maneira mais expressiva. Se fosse mais coloquial e menos científica, sua linguagem de parágrafos curtos e objetivos em tempo presente seria mais adequada a um detetive durão do que a uma mulher com sentimentos complicados. Não ajuda a criar empatia, nem um clima excitante, muito menos idílico. Uma amostra:

 “Sinto-me dividida entre a curiosidade natural, exacerbada por minha formação acadêmica de xenóloga, e o receio de magoar Genteel, abalando os sentimentos de amizade que começamos a estabelecer um com o outro.

Portanto, resolvo consultar a biblioteca do Espumas.

Se, depois de uma boa pesquisa, ainda restar dúvida e minha curiosidade mórbida ainda perturbar meu sono, aí sim, encurralo Genteel num canto e disparo minha saraivada de perguntas.

Meu ponto de partida são uns poucos fatos desconexos que ele me transmitiu em nossas conversas.

Por exemplo, ontem mesmo ele afirmou que os renatos centauroides atingem a maturidade sexual e, ao procriarem, geram crias centauroides”.

O próprio momento decisivo lembra, às vezes, mais um documentário do Discovery Channel do que uma cena erótica: “Genteel pode ser estimulado até o orgasmo pela fricção dessas pequenas bordas de carne rígida que emergiram há pouco das extremidades de seus tentáculos”. Há passagens menos, digamos, anátomo-fisiológicas, mas o tom de objetividade científica quase sufoca as sugestões de prazer erótico, para não falar de amor.

A relação, na melhor das hipóteses, se apresenta física e superficial. Mais Último Tango em Paris ou 9½ Semanas de Amor, inclusive nos toques sadomasoquistas, do que a paixão profunda que a protagonista alega e tenta repetitivamente explicar com os mesmos argumentos racionais, em vez de mostrar que a sente de fato.

A narrativa em primeira pessoa poderia ajudar a expor a subjetividade, mas isso quase não acontece. O tom geral é de uma professora que dá uma longa aula expositiva sobre um planeta exótico e a tempera com um episódio picante e algumas cenas de combate (ora reais, ora virtuais, pois há longos capítulos em torno de simulações jogadas pelos personagens) para tentar atrair a curiosidade da turma do fundão.

Há um tipo de leitor que se delicia com especulações científicas sobre um mundo imaginário e pouco se importa com forma, enredo e motivações convincentes: para estes, é um prato cheio. Mas provavelmente se sentirá frustrado aqueles que acham que mesmo na ficção científica hard, o cenário deveria servir à trama e aos personagens, não o contrário. É compreensível que um autor se sinta tentado a mostrar ao leitor tudo que é capaz de imaginar, mas é uma tentação à qual deveria resistir se quiser interessar a estes, provavelmente a maioria. Por que não se concentrar em contar uma história realmente cativante, mostrar seu imaginário na medida em que for relevante para ela e depois criar sequências que permitam revelar outros aspectos?

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