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Ficção científica setentona, mas mais ousada e atual que muitas jovenzinhas

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 10/12/2012 19h44, última modificação 11/12/2012 15h26

Muitos dos livros de Arthur C. Clarke, o mais importante autor britânico de ficção científica da segunda metade do século XX, corresponsável pela primeira superprodução cinematográfica do gênero (2001, uma Odisseia no Espaço), são bem conhecidos do público brasileiro. Mas se existe algum que hoje mereceria atenção especial é o recentemente relançado A Cidade e as Estrelas (publicada pelo selo Pulsar da editora Devir, R$ 29,50, 280 páginas).

Escrita de 1937 a 1946, a primeira versão desta obra foi publicada como novela na desaparecida revista pulp Startling Stories com o título de Against the Fall of Night, em novembro de 1948. Foi expandida, transformada em romance e publicada com o título The City and the Stars em 1956. Conforme o prefácio do autor, as modificações mais importantes foram para ampliar o papel dos robôs e computadores de forma a levar em conta os progressos teóricos da cibernética até aquela data na especulação sobre sua capacidade futura.

Os avanços práticos da informática entre 1948 e 1956 foram bem modestos pelos padrões de hoje. Os computadores saíram dos centros de pesquisas militares para encontrarem as primeiras aplicações comerciais, memórias de ferrite substituíram os relés e no fim do período começava-se a experimentar computadores transistorizados em laboratório, mas continuavam a ser máquinas imensas, caríssimas e desajeitadas, com milhares de válvulas prestes a queimar a qualquer momento, que só especialistas sabiam operar.

Nada disso transparece na concepção de Clarke que continua ousadamente futurista, muito à frente das especulações cyberpunk dos anos 1980. Em Diaspar, a cidade que imaginou para um futuro distante, robôs e computadores são ao mesmo tempo onipresentes e quase invisíveis. Realizam um ideal de transparência que ainda é um sonho para os designers de hoje, ao mesmo tempo em que possuem autêntica inteligência artificial. As pessoas passam muito do seu tempo a se divertir com simulações (chamadas “sagas”) que nada devem às fantasias mais ousadas de hoje sobre realidade virtual, além de recorrerem à telepresença e hologramas “sólidos” de forma mais prática e rotineira do que a tripulação do capitão Picard (da segunda série Jornada nas Estrelas, a partir de 1987) usava o comparativamente primitivo holodeck.

Outro aspecto em que essa obra continua muito mais avançada que a maior parte da ficção científica dos anos 1950 e 1960 (e mesmo de décadas posteriores) é nos valores e costumes dos personagens. Nada se vê dos preconceitos de gênero, raça e classe que perpassam grande parte da ficção científica anglo-saxônica da época, nem da ingênua extrapolação dos hábitos da classe média dos subúrbios estadunidenses ao estilo dos Jetsons, onde maridos saem de carro (voador) todos os dias para trabalhar enquanto suas esposas cuidam das crianças e usam eletrodomésticos de linhas supersônicas, com um robô no lugar da empregada negra.

Em Diaspar, a família tradicional não existe e Clarke enfatiza a igualdade de homens e mulheres (apesar de personagens masculinos serem os mais importantes na história). Os indivíduos são gestados pelo Computador Central e planejados até em suas idiossincrasias – alguns, por exemplo, são deliberadamente criados para serem rebeldes e evitar a estagnação da sociedade. Um certo Khedron, por exemplo, foi criado para ser um Jester, função traduzida inadequadamente como “Jogral” (“Coringa” seria mais adequado) e Alvin para ser um “Único”, um papel ainda mais raro e importante, que o faz uma espécie de equivalente científico e tecnocráticos dos “Escolhidos” dos épicos de fantasia. Todos nascem quase adultos, vivem milênios depois de um breve período de tutela por humanos mais velhos (nos papéis de “pais” e “tutor”) e quando chegam ao fim do tempo que lhes foi destinado são arquivados na memória do computador principal para serem um dia revividos.

Datada, só algo empolada tradução de Hélio Pólvora, de 1967, que a Devir houve por bem reaproveitar, atualizando apenas a ortografia. Não fosse por isso, muitos leitores poderiam julgar que ela foi escrita no terceiro milênio. Suas especulações ainda são instigantes, quase todas as suas concepções continuam atuais e suas ideias básicas continuam universais e atemporais, dizendo respeito a toda a humanidade e não a uma nação em especial, como na maioria das principais obras desse autor. É preciso estar bem atento à história da ciência para notar, aqui e ali, uma ideia ultrapassada – por exemplo, embora os mares tenham secado e quase toda a Terra reduzida a desertos, a atmosfera continua respirável. Lembrete de que nos anos 1950 a consciência ecológica ainda não estava difundida. Até um autor tão cientificamente sofisticado quanto Clarke deixou de notar que a vegetação é indispensável à manutenção do oxigênio atmosférico.

Ainda assim, esta é uma obra que expressa, de uma maneira nada óbvia, preocupações sociais e políticas típicas do seu tempo. Diaspar é uma megalópole avançadíssima e hermeticamente fechada, protegida do mundo desertificado à sua volta por um campo de força, muralhas altíssimas e, principalmente, pela fobia generalizada de seus habitantes em relação ao mundo exterior, alimentada por mitos sobre invasores alienígenas que há muito tempo teriam expulsado a humanidade do império interestelar que um dia conquistou e ameaçado a própria Terra. Alvin, o protagonista, é o primeiro habitante da cidade em cerca de um bilhão de anos a sequer pensar em descobrir o que existe do lado de fora.

Os leitores que me desculpem por adiantar um dos desenvolvimentos da trama, mas a certa altura Alvin descobrirá que sua cidade não é a única que restava no planeta, como pensava. Há uma outra comunidade, ligada à primeira por um “metrô” secreto que não era usado há eras: Lys, um grande oásis verde, cercado de muralhas e com muitos pequenos povoados, cujo modo de vida se opõe a Diaspar em muitos os aspectos.

Enquanto na sua cidade natal, as pessoas vivem apenas para se divertir e se expressar, consomem comida sintética (graças à qual não precisam mais de dentes) e deixam ao Computador Central a produção, a manutenção, o governo e todas as decisões importantes sobre o futuro, em Lys a ciência, a economia e a política continuam nas mãos das comunidades humanas, que cultivam e consomem alimentos naturais e pesquisam o mundo ao redor, que inclui animais curiosamente evoluídos ou trazidos de outros mundos. Em Diaspar, as pessoas são sempre jovens e o sexo existe apenas para o prazer, mas nesse estranho outro mundo as mulheres continuam a parir filhos (embora não façam só isso, pois Lys é liderada por Seranis, uma mulher), as pessoas ainda envelhecem e morrem e têm corpos mais semelhantes aos de seus ancestrais, inclusive esse estranho buraquinho na barriga, o umbigo. Isso não quer dizer que Lys seja atrasada ou primitiva: seus cidadãos têm poderes mentais mais avançados que os de Diaspa (inclusive a telepatia), compreendem melhor sua realidade e são menos medrosos.

Lys lembra mais as utopias socialistas do século XIX (ou mesmo fantasias espíritas ou esotéricas sobre comunidades ideais) do que o socialismo real da era de Stálin, mas é possível vê-la como uma projeção de um amplo ideal comunista de comunidade autogovernada e fundamentada no trabalho consciente e na harmonia com a natureza. Por sua vez, Diaspar também nada tem a ver com a conflitiva realidade social do Reino Unido ou dos EUA dos anos 1950, mas pode ser vista como o sonho de consumo definitivo do capitalismo tecnocrático. Embora não se fale de dinheiro, é um gigantesco misto de parque temático com shopping center no qual a morte foi abolida, há todos os luxos e lazeres que se possa imaginar e nenhuma preocupação. Todo os problemas foram deixados a um sistema que os resolve automaticamente e a natureza reduzida a um jardim decorativo entre prédios altíssimos.

Não é um confronto entre as duas sociedades de uma guerra fria já desaparecida, mas um confronto entre seus ideais, que seguem muito vivos. E como verificará quem ler a obra, a posição de Clarke é ambivalente. Ambas são descritas de forma idealizada e atraente (ao menos para quem convive com as misérias da vida real de um lado ou de outro), mas ao mesmo tempo deixam a desejar em algum aspecto. E se o leitor permite que se adiante mais um aspecto da obra, o autor, depois de recorrer a especulações filosóficas de grande alcance e interessantes metáforas sobre o cristianismo, o maniqueísmo e o Apocalipse e pôr em cena um ser quase divino chamado Vanamonde, acabará por sugerir que será necessária uma síntese das duas sociedades para tirar a humanidade de um bilhão de anos de marasmo, recuperar os desaparecidos mares e florestas da Terra e reabrir o caminho das estrelas do qual a espécie humana tinha desistido. Embora seja um romance dos anos 1950 ambientado um bilhão de anos no futuro, é igualmente atual e provocante para o leitor de 2012.

Uma amostra:

Único. Palavra estranha, palavra triste. Coisa também estranha e triste de alguém ser. Quando ela lhe foi aplicada – e várias vezes isso aconteceu, quando não pensavam que ele estivesse escutando –, parecia conter agourentos meios tons ameaçando mais que sua própria felicidade.

Seus pais e o tutor (e todos quantos conhecia) tentaram protegê-lo da verdade, como se ansiosos para preservar-lhe inocência da longa infância. A pretensão duraria pouco: em breves dias ele se tornava cidadão completo de Diaspar, e nada que desejasse saber lhe poderia ser recusado.

Por que, por exemplo, não se adaptava às sagas? De todos os milhares de formas de recreação na cidade, eram as mais populares. Quando alguém entrava numa Saga, não o fazia apenas como observador passivo, como nas toscas diversões das épocas primitivas, que Alvin modelava às vezes; era um participante ativo e possuía – ou parecia possuir – livre arbítrio. Os eventos e cenas que constituíam a matéria-prima das aventuras poderiam ter sido preparadas antecipadamente por artistas desconhecidos, mas havia bastante flexibilidade para permitir ampla variação. Podia-se penetrar nesses mundos fantasmais com os amigos, buscar emoções que não existiam em Diaspar – e, enquanto o sonho durasse, não havia maneira de distingui-lo da realidade. Na verdade, quem poderia ter a certeza de que a própria Diaspar não fosse sonho?

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