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Fantasia em dobro

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 26/01/2012 18h25, última modificação 26/01/2012 18h26
Duplo_fantasia_heroica

Oludara e Van Oost, os heróis de Kastensmidt

Desde 2010, a Editora Devir tem lançado livretos (formato 9 x 15 cm, 128 páginas, R$ 15,90) em duas coleções chamadas Duplo Fantasia Heroica e Duplo Sobrenatural concebidos de maneira incomum: cada um deles contém duas noveletas (ou seja, contos longos), uma delas de um autor estrangeiro, outra de um autor nacional.
Na maioria dos casos, o primeiro é mais conhecido, o que sugere que o propósito é levar o leitor a comprar o livreto em busca do texto do estrangeiro popular e aproveitar a ocasião para apresentar-lhe um autor nacional do mesmo gênero que merece ser conhecido. Parece uma ideia interessante, que merece ser explorada mais extensivamente, mas como veremos, não serve para qualquer tipo de narrativa.

O primeiro Duplo Sobrenatural contém a noveleta O Recipiente, do escritor estadunidense Orson Scott Card, mais conhecido pelo romance de ficção científica O Jogo do Exterminador e o similar nacional é A Fábrica, de Carlos Orsi.

O primeiro Duplo Fantasia Heroica apresenta O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara, de Christopher Kastensmidt, que é estadunidense mas vive no Rio Grande do Sul (onde leciona na área de comunicações na PUC-RS) e A Travessia, do escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo. E o segundo traz A Batalha Temerária contra o Capelobo e Encontros de Sangue, dos mesmos autores. As noveletas de Kastensmidt são partes da sequência A Bandeira do Elefante e da Arara e as de Causo formam a Saga de Tajarê.

Kastensmidt é um autor mais recente e menos conhecido que Orson Scott Card, mas suas noveletas ambientadas no Brasil colonial e que exploram o folclore brasileiro têm tido boa recepção nos EUA, onde têm sido publicadas desde 2009 na revista Realms of Fantasy. Sua série recebeu o prêmio Readers' Choice Award for Best Fiction de 2010 (Prêmio Escolha dos Leitores para Melhor Ficção) da revista e foi finalista do Prêmio Nebula (um dos mais importantes no gênero da ficção científica e fantasia) para a Melhor Noveleta de 2010. Com a série Duplo Fantasia Heroica essas histórias começam a ser conhecidas também no Brasil, onde se originaram.

Vale a pena uma visita ao seu site http://www.eamb.org/, no qual, entre outras coisas, ensina os gringos a pronunciar “Saci Pererê” (Sah-SEE Peh-(d)eh-(D)AY) e explica que (na sua versão) trata-se de uma criança escrava que chegou no primeiro navio negreiro a chegar ao Brasil e foi traiçoeiramente assassinado. Uma magia poderosa o trouxe de volta em sua forma atual: um diabinho de uma perna só, com poderes mágicos.

Causo é um autor brasileiro com dois romances, uma novela e muitos contos publicados (alguns deles resenhados neste site ou na CartaCapital) e possivelmente o melhor livro hoje disponível sobre a história da ficção científica brasileira, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950 (também resenhado nesta revista).

No Duplo Fantasia Heroica 2, essas duas versões fantásticas do Brasil mostram-se relacionadas mais bem diferentes. Na noveleta de Kastensmidt, um holandês (Van Oost) torna-se amigo de um ioruba (Oludara) e juntos exploram os mistérios das selvas brasileiras e conhecem seus indígenas. Neste segundo episódio, depois de um breve contato com o Saci-Pererê, os dois aventureiros chegam a uma aldeia indígena, onde são recebidos com hostilidade pelos guerreiros mas, por sugestão do velho pajé, serão poupados se conseguirem eliminar o monstro que os ameaça, o Capelobo – uma das muitas entidades do folclore brasileiro (esta, típica do Pará eMaranhão).

Trata-se de uma aventura bem linear e sem nuances. São heróis à moda antiga, sem conflitos interiores nem quaisquer interesses próprios além do gosto pela aventura, de acordo com o modelo mais tradicional de romances juvenis em cenários exóticos – inclusive pela composição da dupla, um aventureiro branco e um ajudante exótico, à maneira de Fantasma e Guran, Mandrake e Lothar, Zorro (Lone Ranger) e Tonto, Besouro Verde (Green Hornet) e Kato, John Carter e Tars Tarkas, Han Solo e Chewbacca...

Os personagens secundários são planos e estereotipados. O principal antagonista é um bicho-papão que parece saído de um conto infantil, a ser destruído sem hesitação ou questionamentos e a linguagem é simples, direta e descritiva. Dito isso, a história é bem construída em seus momentos de humor e suspense e funciona bem ante as expectativas que cria. Uma amostra:

Quando Oludara terminou sua frase, uma criatura emergiu da caverna: sem sombra de dúvida, o Capelobo.

A besta caminhava sobre duas pernas e tinha sete pés de altura. Pelos negros de sete polegadas de comprimento cobriam seu corpo. O rosto largo fazia lembrar uma anta, mas um focinho alongado sobressaía-se de sua cara e ia afunilando até a ponta, como o de um tamanduá. Olhos minúsculos reluziam nas laterais de sua cabeça. Seus pés pareciam cascos de touro. Garras grossas, espessas e curvadas saíam de seus dedos, e a garra do meio era mais longa que as outras. A criatura andava de um jeito pesado, desengonçado mas mesmo assim exalando poder a cada passo.

– Isso não vai ser fácil – sussurrou Gerard.

– Com certeza, não – disse Oludara, preparando seu arco. – Antes de tudo, acho que deveríamos testar a afirmativa dos nativos de que a fera não pode ser perfurada.

– Espere – sussurrou Arani. – Ele está fazendo alguma coisa.

O texto deRoberto Causoé bem diferente. É parte de um épico de fantasia ambientado na Amazônia durante a Idade Média europeia, cujo protagonista é um guerreiro indígena (de etnia não muito bem determinada) chamado Tajarê que tem como companheira (e esposa) a feiticeira islandesa Sjala, que o conheceu ao participar de uma expedição viking às Américas.

Suas aventuras os levam a encontrar e eventualmente combater entidades lendárias como as icamiabas, a Cobra Grande, os mapinguaris e, neste episódio, os igpupiaras, mas estas criaturas têm relações mais complexas entre si e com os mistérios que se oculta por trás da trama e da selva. Os personagens, mesmo secundários, têm profundidade e seus conflitos e evolução enquanto indivíduos têm um papel importante no enredo.

Os diálogos são expressos com um estilo peculiar, que parece querer reproduzir a fala de um índio brasileiro que tem o português como segunda língua. Deve dificultar um bocado a aproximação do leitor menos escolado e é anacrônico (pois a história se passa muito antes dos primeiros contatos com os portugueses), mas não se pode negar que esse rebuscamento contribui para dar mais autenticidade ao clima exótico da epopeia e predispor o leitor culto a aceitar a estranheza dos costumes e valores em jogo. Uma amostra:

Sjala, atormentada por questões nascidas das histórias contadas ao redor do fogo, inclinou-se de modo a poder falar ao ouvido de Sotowái, que ia à frente dela na canoa.

– Com Sotowái soube ele que Tajarê havia retardado a Cobra Grande contra as Icamiabas no ataque a a aldeia de elas? – perguntou.

Estivera com Tajarê o tempo todo, quando do reencontro dele com o pajé, seus irmãos e seu pai. Não se recordava de ele ter estado sozinho tempo suficiente com Sotowái, para conversar com ele sobre o ocorrido.

– Tajarê é o Herói da Terra – disse o feiticeiro – mas é com Sotowái que os que falam pela Terra tratam em voz e em presença.

– A mulher de longos cabelos negros contou pra Sotowái todo o ocorrido? – Sjala murmurou.

– O que não contou ela, mostrou em sonhos-visões.

Sjala refletiu sobre o que ouvia. Estava aí a resposta de como o grupo de Uilamuê havia encontrado a ela e Tajarê em meio ao caos deflagrado pelas Icamiabas. Sotowái os guiava, e por sua vez era guiado pela misteriosa aparição – a mulher de cabelos negros que se arrastavam aos seus pés, e que acompanhava o destino de Sjala desde o seu primeiro dia ali. Mas havia uma última pergunta.

–O pajé é homem de grande poder de feitura mágica – ela disse. – Mas como Sotowái debandou os Igpupiaras, é o que Sjala mais deseja saber.

Sotowái respondeu:

– Igpupiara mora no escuro das águas no lodo das águas e tem medo ódio de tudo todos que vivem fora da água e dos homens e das mulheres ainda mais que ele quer matar, afogar. Igpupiara não faz nem troca nem favor e pensa só em matar afogar os que pode e os que não ele olha de longe com ódio fundo nos olhos de enxergar fundo no fundo dos rios. O Igpupiara odeia. E só conhece ele o ódio.

Trata-se, como se vê, de um trabalho muito mais elaborado e mais interessante de quase qualquer ponto de vista. Mas um aspecto o prejudica em relação ao texto que o acompanha: embora o texto de Kastensmidt faça uma leve alusão a uma história anterior, não é preciso lê-la para apreciar a noveleta. Esta se fecha bem em si mesma, como qualquer episódio de um típico seriado de tevê estadunidense. As situações são pontuais e as ligações com acontecimentos anteriores não são fundamentais para compreendê-las.

Já o texto de Causo dificilmente será bem entendido e apreciado por quem não acompanhou a saga desde o início, pois o desenvolvimento dos personagens e situações não cabe nas dimensões desse trecho. O protagonista Tajarê está ausente, supostamente morto, dando oportunidade para outros personagens se desenvolverem melhor. As conexões com eventos anteriores são essenciais ao seu entendimento e as alusões que a eles se fazem não bastam para tornar satisfatória a leitura desse episódio em separado.

Em outras palavras, o formato do “duplo heroico” não é apropriado para todo tipo de texto. Enquanto o de Kastensmidt nele se encaixa perfeitamente, o de Causo soa mutilado, embora provavelmente o conjunto de sua saga, se um dia for publicado num volume maior, resulte num épico superior.

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