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Em Roma, como os romanos

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 14/04/2012 21h47, última modificação 14/04/2012 21h47

 

O Brasil tem uma forte tradição em romances históricos, que inclui seu primeiro romance de qualquer gênero (Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida), O Guarani, de José Alencar e, para dar exemplos mais recentes, Agosto de Rubem Fonseca e Desmundo de Ana Miranda. Mas praticamente todos se restringem ao passado do próprio Brasil: raros se aventuram em história antiga ou medieval, talvez por receio de serem escorraçados ao visitarem território tradicionalmente reservado a autores da Europa e América do Norte e ridicularizados como imigrantes sem documentos.

Se acaso é assim, é um desperdício. Para se constatar que é perfeitamente possível a um brasileiro escrever boa ficção histórica sobre a Antiguidade, basta ler O Centésimo em Roma (Rocco, 423 páginas, R$ 49, também disponível como e-book) do escritor e roteirista gaúcho Max Mallmann, autor também dos romances Síndrome de Quimera e Zigurate e do roteiro da telenovela Coração de Estudante. A recriação da civilização romana do tempo de Nero e do Ano dos Quatro Imperadores não deixa nada a dever a romances estrangeiros comparáveis.

O primeiro deles que vem à mente ao se ler este livro é Asteca, best-seller de 1980 do estadunidense Gary Jennings mais tarde dividido, por razões editoriais, em dois volumes, Orgulho Asteca e Sangue Asteca, que teve várias sequências e ainda é bem vendido. Não só pelo trabalho sério e fiel de reconstrução da história de uma civilização desaparecida, como também pela semelhança dos protagonistas.

Assim como o Mixtli de Jennings, o Desiderius Dolens de Mallmann (as conotações dos nomes são propositais) é um cidadão livre de origem humilde que aspira a se tornar um nobre honorário, tem intimidade com todas as camadas sociais, vê sua própria sociedade com senso de ironia e apesar de não estar no topo da cadeia alimentar, está sempre no meio dos eventos mais decisivos de seu tempo.

Dolens não pensa como Júlio César, que dizia preferir “ser o primeiro numa aldeia que o segundo em Roma”. Ele se satisfaria com ser o “centésimo em Roma”, como dizia um personagem do conto “Um homem célebre”, de Machado de Assis, mas parece condenado à frustração e à obscuridade de uma morte como plebeu, apesar de sua dedicação à Pátria e de ser notável, à sua maneira, em sua mistura de qualidades e defeitos, coragem e covardia.

Mixtli é um ex-diplomata, guerreiro e comerciante asteca bem educado que narra sua história em primeira pessoa a um inquisidor espanhol. Já Dolens é um centurião romano íntegro e competente, mas inculto, cuja vida é narrada por um subordinado aleijado, culto e nobre, Trebellius Nepos, que depois se tornaria um historiador menor. Os capítulos de seu livro se alternam com narrativas mais detalhadas em terceira pessoa, apresentadas como especulações “ficcionais” a partir da história “real” que ele conta. A trama é mais complexa que a de uma mera história de detetive (embora esse elemento esteja presente), mas Dolens e Nepos são quase como Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Apesar das frequentes desavenças, um e outro aprendem a se respeitar e admirar, ainda que não a se compreenderem totalmente enquanto lutam para sobreviver a tempos difíceis e imprevisíveis.

Em alguns aspectos, Centésimo é superior a Asteca. A exatidão das descrições de cenários e costumes é comparável, mas Dolens é mais convincente como romano do que Mixtli como asteca. O herói de Jennings é demasiado atípico, tanto pela carreira inusual quanto por seus pontos de vista. Despreza o cristianismo tanto quanto os sacerdotes e as práticas sacrificais da civilização na qual foi criado e frequentemente pensa como um estadunidense liberal obrigado a se encarnar no corpo de um mexica. Sacerdotes cristãos e pagãos são retratados de maneira igualmente caricata. Já Dolens apresenta um misto de respeito aos deuses tradicionais, superstição, blasfêmia e ceticismo que seria de se esperar de um romano popular de seu tempo e Nepos pensa como bom filósofo estoico (inclusive quando o comandante o manda limpar latrinas). Ambos desprezam os cristãos, como também seria de se esperar, mas estes são retratados com equilíbrio em sua combinação de coragem, lealdade e estúpido fanatismo.

Claro que é muito mais difícil para um estadunidense se imaginar asteca do que para um brasileiro se pôr na pele de um romano. São valores e costumes que não nos são tão estranhos – vale lembrar o título de um conhecido romance epistolar de uma governanta do século XIX, Ina von Binzer: “Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil”. O autor pode até se dar ao luxo de fazer alusões sutis a costumes e problemas brasileiros modernos sem cometer anacronismos.

Por outro lado, o conhecimento histórico que se tem da Roma do século I é bem mais rico e detalhado do que da civilização asteca pré-colombiana, o que deixa menos espaço para a imaginação e mais para erros embaraçosos – mas ainda assim, o brasileiro se sai muito bem.

E ainda melhor no que se refere a fazer personagens secundários, principalmente os femininos, parecerem reais. As muitas mulheres da vida de Mixtli são todas lindas e maravilhosas como um sonho, correspondem às suas fantasias e se dividem em dois grupos: doces relações casuais e paixões avassaladoras com finais trágicos. As de Dolens são mais palpáveis como personalidades próprias, independentes e imperfeitas, que lhe dão tantas satisfações e dores de cabeça quanto seria de se esperar de uma vida real. Além de se dividir entre a esposa bonita e briguenta que trouxe da Germânia, a prostituta velha que conhece desde a juventude e o desejo impossível por uma jovem aristocrata que o despreza, não consegue (nem quer) deixar de lado, o centurião sustenta a mãe, uma irmã viúva e uma escrava, nenhuma das quais submissa ao atribulado pater familias. Quanto a Nepos, é discreto sobre sua vida sexual, mas sua principal relação é com um seu escravo.

Centésimo também se sai melhor no equilíbrio de peripécias trágicas, cômicas e eróticas da trama. Jennings abusa do melodrama e dos extremos de felicidade, prazer, ferocidade e desgraça, enquanto Mallman oferece mais quotidiano e meios-tons sem ser por isso menos interessante. A rotina melancólica dos bordéis e tavernas da Suburra (bairro boêmio e pobre onde vive a família de Dolens) e dos quartéis das cohortes urbanae (o equivalente romano da nossa polícia militar, sem nada do prestígio das legiões e da guarda pretoriana) se mostram tão fascinantes quanto a queda de Nero e as intrigas da sucessão. Enquanto Asteca fervilha de bizarrices eróticas que devem muito mais à fantasia do autor do que a fontes históricas, Centésimo faz um retrato balanceado da sexualidade romana, sem sensacionalismo. Os diálogos vivos e convincentes, as intrigas e as ironias certeiras dos personagens garantem o encanto e a diversão mesmo quando os gládios estão embainhados e as túnicas vestidas.

O texto inclui alguns anacronismos intencionais, tais como citações de autores modernos inseridos no texto, inclusive trechos de Shakespeare, Churchill e Machado de Assis. Os mais sérios se integram bem na trama, mas aqui e ali se tornam óbvios demais– por exemplo, uma frase da Marselhesa no discurso de um senador, uma alusão a um clichê de cinema, versões latinas de lemas de torcidas de futebol brasileiras numa partida de harpastum (jogo romano de bola semelhante ao rúgbi) – e arranham a verossimilhança sem necessidade, pois os sarcasmos de Dolens, as manias de nobres e plebeus e a ironia intrínseca das situações em que se metem são muito mais eficazes como humor sem quebrar a consistência.

Anacronismos involuntários são imperceptíveis, salvo, talvez, nomes alemães modernos como Köln (Colônia) nas bocas de germanos da época de Nero e Tristram (e Tristanus em latim) para um bretão, quando essa é uma variante medieval do nome Drust (latinizado Drustanus no século V) de vários chefes pictos da história real (e não, o personagem nada tem a ver com o amante de Isolda). Há também um ou outro despejo de informação que poderia ter sido mais hábil – por exemplo, um texto atribuído a Nepos se demora a explicar o significado de Dolens em latim, o que não caberia no texto de um intelectual romano escrevendo a seus pares.

O único ponto em que este romance fica a dever ao de Jennings é na amplitude do cenário: enquanto Mixtli explora todo o mundo conhecido dos astecas, a ação do Centésimo se concentra em Roma, salvo ao insinuar, no final, eventuais sequências que poderiam se estender a outras partes do Império Romano. Se estas vierem a existir, com certeza serão igualmente dignas de interesse e leitura. O Brasil de fato conseguiu conquistar Roma, como escreve Mallmann na conclusão de seu posfácio: “bárbaro contemporâneo, cruzei o portão da Urbe não como quem invade, e sim como quem toma posse. A Roma Antiga não pertence apenas (...) aos europeus (...) A Roma latina é uma herança que também é minha, e hoje, com a voz e com as palavras que tenho, eu a reivindico”.

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