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Economia

De volta ao Bitcoin

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 12/01/2015 19h12, última modificação 09/06/2015 17h06
Ninguém deve se espantar se o colapso das criptomoedas der o que falar em 2015 – embora seja menos grave, do ponto de vista da economia mundial, que o estouro da bolha especulativa das ações dos EUA
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bitcoin: apesar das expectativas de que atingiria 2 mil dólares ou mais, sua cotação caiu de 730,50 para 316,77 dólares, uma queda de  56%.

Bitcoin: queda de 56%

Os brasileiros que planejaram viajar ao exterior tiveram motivos para resmungar contra a queda de 11% do real frente ao dólar (este subiu de 2,36 para 2,66 reais em 2014), mais ainda os argentinos, cujo peso caiu 24%, os russos, com queda de 42% para o rublo e os ucranianos, cuja hryvnia caiu 48%. Mas a moeda que mais perdeu valor nesse ano não foi nenhuma destas e sim o bitcoin: apesar das expectativas de que atingiria 2 mil dólares ou mais, sua cotação caiu de 730,50 para 316,77 dólares, uma queda de  56%.

Da última vez que abordamos o assunto, em 26 de agosto,o bitcoin ainda valia 510 dólares. Hoje, cerca da metade. A deterioração tem continuado em janeiro, possivelmente agravada pelo roubo de 5 milhões de dólares em bitcoins da bolsa eslovena Bitstamp, que mais uma vez pôs em questão o mito da segurança das criptomoedas. Em 12 de janeiro, fechou em 268 dólares, menos de um quarto do recorde de 1.076 dólares em 4 de dezembro de 2013.  Isso significa uma perda de 9,8 bilhões de dólares.

Bem irônico, considerando-se que os incansáveis apóstolos da criptomoeda tanto insistem em que um algoritmo é mais confiável que um governo e criticam o dólar por ter perdido gradualmente valor desde sua criação (96% desde 1776). É improvável qualquer moeda manter o seu valor estável ao longo de séculos, ainda mais em tempos modernos. O importante é que se possa confiar em que ela mantenha razoavelmente seu valor no curto prazo, que se possa planejar que o dinheiro recebido hoje pague a conta de amanhã. O dólar, com uma inflação de 1,4% em 2014 passa no teste, ou mesmo o real, com inflação de 6,41%. O bitcoin, não. Outras criptomoedas se saíram ainda pior, notadamente o litecoin, praticamente idêntico do ponto de vista técnico e que até meados de 2014 era a segunda delas em importância. No início de 2014, valia 23 dólares, ao final, 2,73 (queda de 88%) e hoje, 1,72.

Uma vez que uma criptomoeda não tem lastro, nem um governo que garanta sua aceitação no pagamento de impostos e dívidas, a única sustentação a seu valor seria a disposição de usuários de utilizá-la sistematicamente no lugar das moedas convencionais em uma fatia considerável e estável da aquisição legal de bens de produção ou consumo.

Durante o ano, várias novas aplicações legítimas para as criptomoedas foram anunciadas e algumas empresas conhecidas se capacitaram para utilizá-las. Também parece ter havido um aumento no número de transações. Mas ao que tudo indica, foram na maioria especulativas (tentativas de fazer lucro comprando e vendendo bitcoins com dólares ou outras moedas) e uma parcela importante foram transações ilegais.

A especulação perde fôlego com a constatação de que as expectativas de valorização a médio prazo eram exageradas (para não dizer absurdas) e o uso ilegal tem sido coibido com o fechamento de “mercados negros” online como o Silk Road, definitivamente encerrado pela polícia dos EUA em novembro de 2014. A ilusão de sigilo, segurança e privacidade absolutas também foi minada pela revelação da extensão da espionagem online da NSA e agências semelhantes em outros países. A própria natureza da criptomoeda torna necessário (para evitar a falsificação ou duplicação de bitcoins ou similares) que a rede que a mantém rastreie todas as suas transações desde sua criação com o rigor de um cartório imobiliário. Os endereços pelos quais é transferida são teoricamente anônimos, mas qualquer agência realmente interessada saberá cruzar dados para obter seus proprietários e acompanhar seus movimentos com a mesma facilidade com que se rastreia uma conta de cartão de crédito ou de rede social.

Ninguém deve se espantar se o colapso das criptomoedas der o que falar em 2015 – embora seja menos grave, do ponto de vista da economia mundial, que o estouro também provável da bolha especulativa das ações dos EUA.