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Audaciosamente indo aonde os gêneros literários se encontram

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 02/07/2012 18h14, última modificação 02/07/2012 18h14

Uma discussão recorrente na ficção científica, assim como entre os leitores de obras de fantasia, terror, policiais e similares é se um texto pode ser ao mesmo tempo um paradigma do gênero e uma obra respeitável como literatura sem adjetivos. Ao interessarem leitores de todas as categorias, obras como as de Jorge Luis Borges e Aldous Huxley ainda podem ser consideradas fantasia ou ficção científica, ou transcenderam os gêneros?

O Alienado (Editora Draco, R$ 44,90, 240 págs.), de Cirilo Lemos, dá uma oportunidade interessante de pensar sobre essa questão. Como romance novo de um autor iniciante (salvo por alguns contos dispersos por antologias temáticas), não tem a aura dos clássicos ou o selo de qualidade do tempo e da crítica para colocá-lo no patamar da “grande literatura”.

Mas é um livro no qual se pode ver em ação temas típicos da ficção científica, como distopia, manipulação de mentes e mundos virtuais, combinados com jogos surreais de fantasia e um estilo bem cuidado, exploração séria de dramas pessoais e sociais e uso hábil de recursos estéticos da literatura moderna. De quebra, integra capítulos narrados na forma de história em quadrinhos – e vale a pena avisar o leitor mais convencional que não são meras ilustrações ou enfeites da edição e sim passagens essenciais à trama.

E então? É uma ficção científica à maneira de Ray Bradbury, uma fantasia weird ao estilo de China Miéville ou deveria estar na mesma prateleira que, digamos, Ítalo Calvino? Um pouco de cada coisa, ou melhor, muito de cada coisa e tudo junto e misturado, é-se tentado a responder – e quem gosta de qualquer um desses três autores provavelmente também gostará de O Alienado. Como o gato de Schrödinger, aquele que estava vivo e morto no mesmo momento, simultaneamente flutua entre as categorias e encaixa-se confortavelmente dentro de cada uma delas.

Para resumir o argumento, Cosmo Kant, que a princípio parece ser apenas um operário com nome “de filósofo” (ou de super-herói de gibi) que sofre de ocasionais alucinações, se vê envolvido em acontecimentos cada vez mais extravagantes. Ao tentar obter respostas para suas perguntas, com a ocasional interferência de um estranho personagem chamado Forasteiro, descobre ser o pivô de uma guerra secreta travada por inspetores a serviço dos autoritários Metafilósofos, para os quais a realidade está sempre em risco de aniquilação total e a disciplina e a abolição da individualidade são a única defesa. Mas não basta desvendar as falsidades do regime, pois talvez não haja nada por trás delas e a própria tentativa de derrubá-lo seja sua forma de se renovar. A história é narrada na maior parte no presente pelo protagonista, mas em alguns capítulos e passagens a palavra é passada a outros personagens.

Pode-se reconhecer influências e citações quase explícitas de Franz Kafka, George Orwell e Dante Alighieri, bem como de Laranja Mecânica, Inception, Matrix e histórias em quadrinhos (principalmente Os Invisíveis, de Grant Morrison), mas a trama é consistente em si mesma e não é preciso identificar essas alusões para entendê-la. É um livro que provavelmente não funcionará bem nas mãos quem está acostumado com narrativas lineares, motivos simples e arquétipos fáceis de reconhecer, mas tem muito a oferecer a um leitor escolado e atualizado em técnicas literárias e temas da ficção especulativa. Não que a linguagem seja obscura ou pedante. Uma amostra:

Estou a ponto de desligar o telefone quando ela tenta a última jogada:

– Encontrei a caixa.

– Que caixa?

– Aquela com a papelada de sua mãe que você insistiu que eu queria esconder. Está aqui. Quero entregar a você, como prova de que só quero o seu bem.

A Razão se desespera: é uma armadilha, seu trouxa, logo agora ela ia encontrar a porcaria da caixa?

Marque um encontro com ela, querido. Vocccê verá que tudo não passsou de um lamentável equívoco. Ela lhe entregará a tal caixa e verá que não há nada de errado com sssua vida ou com ssseu passsado. A vida ssseguirá adiante como sssempre foi.

Mais uma vez, o conselho que vence a disputa para guiar minha decisão vem do Verme de Mel.

Ah, fodam-se, diz a Razão.

Deixe ela, querido. Sssó está um pouco irritada porque é uma má perdedora. Faça o que tem de fazzzer.

– Tudo bem – digo para Maria Cecília. – Encontro você pela manhã no Parque. Leve a caixa e vá sozinha.

– Está falando como personagem de filme. Com quem mais eu iria?

– Sozinha – repito, e bato o telefone com força.

Um pouco de delicadeza não faria mal, resmunga o aparelho.

É a habilidade e a criatividade ao narrar, mais que o tema ou a aprovação dos professores, que põe a obra em condições de interessar a quem se sente à vontade com a arte literária. Uma obra como Fundação de Isaac Asimov ou O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien pode ser um marco em seu gênero, pode ter trazido novos temas à ficção científica e fantasia, respectivamente, e ainda seduzir quem gosta da especulação pela especulação, mas são insossos para quem busca outro tipo de experiências na literatura, enquanto a maioria dos autores clássicos ou modernos que preferem fazer ficção abordando o quotidiano de maneira criativa, são, em geral, vistos como aborrecidos para quem busca o estímulo do insólito.

Mas há obras como as de José Saramago e Moacyr Scliar, para quem se aproxima pela vertente tradicional, ou Philip K. Dick e Kurt Vonnegut, para quem chega da literatura especulativa, onde as qualidades dos dois tipos de literatura se encontram e facilitam a dissolução dos preconceitos e o trânsito de leitores entre os gêneros. Independentemente de qualquer juízo de valor que o compara a esses exemplos mais conhecidos, O Alienado pertence dignamente a essa intersecção. Não é um romance dos mais indicados para principiantes, mas ainda que seja difícil decidir a qual das linhagens deve mais, quem aceitar o desafio e souber encontrar as chaves de seus labirintos deve estar em condições de se aventurar em todas as vertentes da literatura contemporânea. Difícil definir com mais precisão um romance tão interessante: mais vale citar outro trecho para que ele mesmo se explique:

Contra a luz ligeiramente mais forte do fim do corredor, cinco sombras se erguem simetricamente. À frente de todas, o Líder. Ele abre os braços quando me aproximo:

– Estávamos aguardando sua chegada, AM013. Espero que aprecie sua estadia conosco.

– Está frio aqui – murmuro.

– É o banho químico – ele responde. – E nosso aquecimento já viu dias melhores. Está na nossa lista de prioridades para o próximo semestre. Não é mesmo, senhores?

Os homens, todos absolutamente Iguais em aparência e trejeitos, balançam a cabeça, concordando.

– Venha. Vou mostrar suas acomodações.

Seguimos com o cortejo de Iguais atrás de nós. Todos se vestem da mesma maneira, rostos inexpressivos e artificiais como máscaras de látex. Até mesmo o Líder se parece com eles, mas há algo que os distingue dos demais, algo indefinível, talvez um toque de individualidade que o separa um tantinho dos outros, só o suficiente para comandar.

A mão direita dele toca minha cicatriz. Sente-a em toda sua extensão até a nuca. Uma desagradável sensação de submissão.

Ele sorri de forma insondável

– Belo trabalho. Realmente muito bom.

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