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A ficção científica de volta ao futuro

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 01/11/2014 08h10
Série de antologias 'Space Opera' ganha terceiro volume mais disposto a usar conceitos sociais e tecnológicos arrojados em suas concepções de 'futuro'
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A capa do ebook "Space Opera: Aventuras fabulosas por universos extraordinários"

A Editora Draco completa com um terceiro volume – Space Opera:  Aventuras Fabulosas por Universos Extraordinários, por enquanto disponível apenas como ebook (R$ 24,90, 370 páginas) – a série de antologias “Space Opera”. Diferentemente das anteriores, restritas a autores convidados, esta foi aberta a submissões que resultaram numa maior diversidade de temas e estilos. E em contraste com os outros dois volumes, nos quais a maioria dos contos se prendia a ideias sobre o “futuro” datadas dos anos 1960, este mostra uma disposição de usar conceitos sociais e tecnológicos mais atuais e arrojados.

Um bom exemplo é “Convite do Imperador”, da paraense Roberta Spindler, e sua interessante heroína Diana Almeida, uma guerreira interestelar viciada em sexo com prostitutos de uma determinada espécie alienígena que exsuda um alucinógeno que a faz, por algumas horas, sentir como se seu amante morto estivesse a seu lado para acompanhá-la e aconselhá-la. Um pirata espacial lhe oferece a oportunidade de voltar à ativa pilotando um exoesqueleto de combate. Amostra:

– Você é uma mulher difícil de encontrar, Tenente Almeida. Já estava quase perdendo as esperanças.

Tomás franziu a testa para o estranho, imitando o gesto de sua velha amiga.

– Saia da minha mesa se não quiser confusão – ela alertou, a mão buscou a pistola de plasma presa à calça.

“Na Crista da Onda”, do português Luís Filipe Silva, é uma história algo menos satisfatória, devido ao ritmo irregular e às descrições pouco claras. Ao contrário da maioria das histórias, esta se ambienta num futuro relativamente próximo. Trata-se da história de uma operação comercial arriscada de um grupo de astronautas empreendedores para desviar um núcleo de cometa para levar água a Marte, na qual tudo começa a dar errado. Amostra:

Ampliei a zona proposta. O nome de batismo não era bom prenúncio. Era a mítica zona parada dos mares, esquecida pelos ventos, que aprisionava os navios e matava as tripulações em lenta agonia.

– Este é o teu plano de fuga? – perguntei com a voz sumida.

– É o único que parece ser exequível.

Trocamos um olhar coletivo e silencioso. As grandes decisões requerem palavras pequenas, ou nenhuma.

Em “Nosso Estranho Amor”, de Antonio Luiz M. C. Costa (o autor desta resenha), uma “espaceira” – transumana adaptada ao vácuo e à microgravidade – trabalha como operária ao lado de um robô construtor gigante. Quando este entra em crise existencial, ela o incita a saírem juntos em uma viagem sem destino pela Galáxia, em busca de explorarem novas perspectivas pessoais. Amostra:

Preocupada, Chaska quis se informar sobre o que ele fazia. Descobriu que o robô tentou conversar com irmãos de série sobre suas dúvidas, mas não se fez entender como gostaria. Recolheu-se à sua baia, fechou-se à rede e encolheu os tentáculos, disposto a permanecer naquele canto para meditar em solidão pelo tempo que fosse necessário.

Dois terradias depois, sua concentração foi interrompida por um chamado insistente. Reativou os sensores externos e viu Chaska e sua espaçoneta flutuarem à sua frente.

– Oi, Ybarana, bom ciclo. Tem um momentinho para conversar?

– Aconteceu alguma coisa? Precisam de mim no estaleiro?

– Não, nada disso. É que eu decidi antecipar minhas férias e vim perguntar se poderíamos sair juntos. Sempre nos demos bem no trabalho, acho que poderia ser divertido para nós dois.

“Uma Princesa de Stroff-Bingen”, dos portugueses Júlia Durand e Rui Leite, é um conto em tom de paródia sobre uma mimada princesa interestelar em fuga de um casamento indesejado e um herói ingênuo que a socorre. Todos os clichês da space opera juntos, misturados e ironizados com muito humor, mesmo se parte dele talvez escape ao leitor brasileiro desacostumado com a linguagem lusitana. Amostra:

Enquanto tentava resolver o novo problema que se aproximava – nomeadamente, como atravessar o cerco de uma frota de naves sem morrer ou matar alguém no processo – Victor não podia deixar de ouvir a estranha conversa que os seus “novos amigos” tinham entre si.

– Estás satisfeito? Agora vamos morrer todos por tua causa! Ele é um idiota! Um maldito “herói espacial”!

Não prestou grande atenção porque a conversa não lhe dizia respeito e não a deveria escutar. A sua mãe sempre lhe dissera que isso não era bonito.

“Os Argonautas”, do paulista Sid Castro, chega perto de ser épico no sentido próprio da palavra. A premissa é grandiosa e envolve salvar a humanidade de um inimigo terrível, por meio da gigantesca nave Argos, capaz de se transformar em uma frota inteira de módulos interligados por “condutos hiperespaciais”. O conto se baseia no mito grego dos Argonautas e nele surgem equivalentes futuristas de Jasão, Héracles e Medeia na forma de humanos transformados pela tecnologia genética e pela adaptação a outros mundos, bem como os de dragões, harpias e outros monstros mitológicos convertidos em seres extraterrestres. A majestade da trama é, porém, prejudicada por uma estrutura previsível demais e um tanto gasta pelo uso repetido em games, desenhos animados, e aventuras infanto-juvenis: um “mestre galáctico” instrui os heróis a resgatar sete esferas escondidas em diferentes mundos, cuja reunião criará uma arma invencível, “velocino cósmico”. Amostra:

– E o que é o Velocino Cósmico?

– Segundo Vyor, será a resposta humana ao Nulificador.

– Você confia nele?

– Humanos não têm mais opção. O Mestre Vyor é tudo com que podemos contar.

Como se reagindo à citação de seu nome, o Mestre Galáctico e seu Cajado Cósmico materializaram-se na sala de comando da Argos. Ninguém parecia surpreso, exceto, é claro, o terrestre.

“Sua nova missão, Argonautas, é resgatar a Esfera em poder dos Nômades do Espaço. Ela é adorada como artefato religioso pelos kólkidas, desde que trazido de seu mundo destruído. O terrestre os guiará até ela...”

Com “Ecos de Maztah”, da fluminense Carol Chiovatto, volta-se ao tema da princesa resgatada pelo herói interestelar, desta vez num registro menos cômico e mais romântico. A história tem toques de originalidade, a começar por um planeta habitado por fadas de ficção científica, tem descrições vivas e uma história de amor bem contada. O ponto fraco é dever um pouco demais ao modelo de Star Wars: Uma Nova Esperança quanto à personalidade dos protagonistas e algumas das cenas mais cruciais. Amostra:

Se a fama dos soldados beta-centaurianos fosse verdadeira, ele fora torturado com frequência, mas nunca para ultrapassar aquele limiar da dor em que a pessoa perde os sentidos. Apenas o suficiente para enlouquecer um ser humano. Que Solomon conseguisse falar coisas coerentes era, por si só, um fato admirável.

– Nem acredito na sorte de encontrar você – Solomon disse, levantando-se de repente.

Zilah não se moveu, olhando-o inquisidoramente.

– E o que isso quer dizer?

– Ora, você não me conhece? – Solomon olhou-a de cima, todo senhor de si.

– Bom, claro que sim. E sua fama de antipático, egoísta e autossuficiente sempre o precedeu.

Ele sorriu de lado. Um sorriso torto que sempre a deixava irritada. E ele sabia disso.

“O Cortiço e as Estrelas”, do carioca Pedro Vieira, é uma mescla, ou mash-up, de trechos de O Cortiço de Aluísio Azevedo com uma aventura de ficção científica. O cortiço do romance se transforma na inteligência artificial de uma precária nave interestelar construída pelo “lusodescendente” João Romão, ajudado por uma autômata chamada Bertoleza, para carregar colonos pobres para um planeta distante e minerar asteroides pelo caminho. Jerônimo, Rita Baiana, Firmo, Pombinha e outros personagens do clássico se convertem em astrogarimpeiros, mutantes, ciborgues e humanos geneticamente modificados. A ideia é interessante, mas a execução deixa a desejar. A trama e a linguagem sérias e adultas de Azevedo não se fundem bem com o humor juvenil de Vieira e os preconceitos raciais e sexuais do século XIX, essenciais ao romance original (aos quais Vieira soma clichês sobre portugueses e seus maneirismos típicos do século XX) combinam mal com o cenário futurista. Uma amostra:

– Aquela não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!... parece que tem fogo no rabo! – opinou Leocádia.

– Evidente que possui as ancas inflamadas – o Cortiço interrompeu novamente – a zoomorfização pela qual a tripulante Rita Baiana optou, ao incorporar genes de...

– Cristo nosso, ele não se cala? Não tem como desligar: – A Machona praguejou, enquanto procurava um suposto botão que, o Cortiço sabia, ela não iria encontrar. De onde esse povaréu tira essas ideias?, onde já se viu, desligá-lo?

– Pode haver o serviço que houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado!

– Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? Levaram aí numa bebedeira, a dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!

“As Filhas de Cassiopeia: A Cruzada pela Liga Interestelar”, do paulista Hugo Vera, organizador da coletânea (ao lado de Larissa Caruso, que não contribuiu com texto próprio), é uma longa continuação da novela cuja primeira parte foi publicada no volume anterior. Continua melodramática em excesso e sobrecarregada de estereótipos e redundâncias, mas desta vez apresenta um enredo mais consistente e conceitos mais ousados, inclusive o contato com uma civilização de pós-humanos modificados pela genética e tecnologia e sua reconciliação com os humanos “bioconservadores”. Amostra:

No Templo de Cassiopeia em Terra Longínqua, as andrômedas assistiam o relato de sua irmã de fé e filosofia na Câmara das Decisões a portas fechadas. A projeção holográfica era transmitida do centro da mesa oval de reuniões.

Ouviam-se gritos de desespero e gemidos em meio a outras explosões. Na imagem, um tenente da Armada Interestelar aparecia por detrás da Andrômeda Síbyla, chamando sua atenção. Era hora de partir.

– Os draconianos estão atacando a população nas ruas com seus robôs – relatou Síbyla. – O tenente Henkar acaba de me informar que naves do Império estão pousando próximas dos limites da cidade. A ocupação começou. Não temos muito tempo agora. Preciso ir, minhas irmãs.

“Nenhuma Babilônia nos dará ordens!”, do fluminense Cirilo S. Lemos, é o conto mais interessante deste volume e de toda a trilogia. Uma trama complexa e não linear se reflete em concepções físicas e biológicas igualmente desafiantes, mesmo para quem tem acompanhado os desenvolvimentos mais recentes da especulação científica. O enredo proporciona um respeitável quebra-cabeças que inclui universos paralelos, tempo relativístico, nanotecnologia e uma nave inteligente de propósitos libertários e revolucionários. A protagonista é um construto de engenharia biológica cujo nome e referências culturais vêm da Suméria do terceiro milênio antes de Cristo e a antagonista uma inteligência artificial construída por uma corporação interestelar que se rebela, domina um planeta e se proclama uma divindade pronta a governar todos os universos, sem outro limite além da própria húbris. Amostra:

Antes da Eufrates ser estraçalhada pelos Gallu, fazia parte das atribuições de En-hedu-ana verificar os Casulos individuais da tripulação e enviar os dados para o diário do Imediato. Todos estavam mortos agora, e a própria nave não era mais que um cadáver pairando sobre o anel de detritos ao redor do planeta infernal; ainda assim, a primeira coisa que fazia ao acordar era verificar as condições dos suportes. Sabia que era pura perda de tempo (se tempo pudesse ser perdido ali), mas seu condicionamento exigia isso. E um pouco de rotina era bom para não pirar.

Que tremenda besteira, ela pensa, enviando os dados para o terminal de um Imediato rasgado ao meio pelos Gallu.