De Fellini ao filme 'noir'
02/12/2009 16:09:22
Paolo Manzo

Roma recua 2 mil anos, embora reviva o passado em trajes contemporâneos.- Parece releitura de Satyricon, o filme de Federico Fellini, com interpretação moderna. No centro, às claras, estão os viadi, os trans brasileiros a cujos encantos se rendeu o ex-governador da região Lazio, Piero Marrazzo. Demissionário depois de revelada sua relação com Natalie, Brenda e Michelle.
No bastidor sombrio movem-se, entrelaçadas em um baixo-relevo enevoa-do, figuras ainda indefinidas de políticos e vips, frequentadores das graças de China, Veronica, Bárbara, Mirela, Shila, Alessia, Camila, Tiffany e Cia. Não seriam escassos os nomes de cavalheiros graúdos envolvidos, e o exemplo de Marrazzo, chantageado por quatro carabinieri que brandiam um vídeo comprometedor, está longe de ser animador.
Duas mortes seguem-se no espaço de menos de dois meses. A de Brenda, sexta 20, e a do traficante Cafasso, fornecedor de droga para as noites bravas dos trans e dos seus fregueses, entre eles Marrazzo, a 12 de setembro passado. O enredo, de saída felliniano, ganha o concurso do cinema noir.
Wendell Mendes Paes, aliás, Brenda, 32 anos, morreu asfixiado por exalações de fumaça gerada pelo estranho incêndio de uma mala conectada por um fio elétrico ao colchão do trans, inquilino de um minúsculo apartamento de 20 metros quadrados, com mezanino como aposento. Sobre a cama a polícia encontrou quatro garrafas de uísque vazias, enquanto o corpo jazia no chão.
O traficante morreu vítima de doses de coca, misturada com heroína e substâncias tóxicas, com certeza não pela mão dele. De quem? Ao lado de Cafasso estava a companheira, se não estável ao menos frequente, Jennifer, viado obviamente, que denunciou o falecimento com razoável atraso.
Apurada a chantagem, presos os chantagistas, dia 28 de outubro Brenda é chamada para um depoimento na polícia. Nega conhecer o ex-governador e qualquer envolvimento. Dois dias após, dia 30, reviravolta. Admite tudo. Descreve o festim de que participou Marrazzo e diz ter filmado o encontro com seu celular. Possui, aliás, mais de um celular, mas desativou todos, tomada pelo pânico. Nega ter computador. O qual, no entanto, foi encontrado pelos policiais na madrugada do dia 20, imerso na água empoçada na pia.
Na quinta 26 de novembro, a imprensa publica as declarações de misteriosa figura, até ontem escondida, segundo a qual o trans assassinado teria vídeos comprometedores de “dez pessoas muito importantes”.
No fim dos anos 90, um brasileiro chamado Brenda, nascido no Rio de família do Amapá, atira-se a confissões diante de uma câmera. Gay desde os 16, ao viver a primeira vez com um primo. Obscura personagem do bairro mais pobre da prostituição romana, sórdida paragem em torno da Via Due Ponti, em contraposição ao nobre reduto da Via Gradoli. Entre as duas áreas, nada além de 1 quilômetro. Diferença entre as suas populações: os trans da Via Due Ponti frequentam as calçadas, enquanto aqueles da Via Gradoli recebem em suas residências, ou se deslocam para as casas militares dos frequeses.
Entre uma turma e outra grassa o ódio de classe. Fala Natalie, da Via Gradoli: “Marrazzo me procura, diz: ‘Dois trans tiraram fotos minhas e me filmaram’. Estava muito preocupado. Não fui eu quem chantageou Marrazzo, vou à tevê para mostrar quem sou e que não sou drogada ou aidética. As outras me invejam por causa do ex-governador, pagava bem e não dava problemas. Por que o colocaria em uma enrascada?”
Natalie e as demais da sua categoria jantam em restaurantes na noite de sábado e bailam no Mucassassina (vaca louca, discoteca gay criada pelo ex-deputado e trans Vladimir Luxuria), na manhã de segunda vão à igreja rezar aos pés da imagem de Santa Bárbara, protetora dos náufragos. As outras, como Brenda, vivem em prédios-colmeia e visitam o ambiente esquálido dos bares da região.
China conta diante das câmeras: “Chego na casa de Brenda, estava bêbada. Mostrou-me o dinheiro, 28 mil euros, disse já ter gasto 2 mil. Recebidos de Marrazzo”. O advogado do ex-governador apressa-se a esclarecer: “Nada disso, não passava de mil euros”. Algo próximo de 3 mil reais.
Resta o enigma. Brenda e Cafasso não se mataram, isto é certo. A polícia aponta para o homicídio, praticado por peritos no assunto. Quem foi? Quem deve e teme? Ou quem sabe de tudo e dá recados? Trata-se de quem tem vocação e larga tradição para o métier, como de fato aparece, ou de quem age movido pelo desespero e pelo medo?
A primeira hipótese soa bem mais plausível, inclusive aos ouvidos da polícia. E se por trás de tudo se amoitasse o Bando dos Casalesi, a facção mais feroz e ousada da Camorra napolitana? Limitam-se a mandar um aviso aos interessados, conforme o script useiro, de sorte a consolidar e se possível alargar os privilégios já adquiridos.
Na receita aparece, de todo modo, um condimento de implicação política e social, de sorte a agravar a questão, e não cabe dissociá-lo do turvo momento atravessado pelo premier Silvio Berlusconi, que a revista Rolling Stone acaba de eleger ---rockstar- de 2009, título muito merecido.
Como CartaCapital já sublinhou, a coligação governista exibe brechas inquietantes e a aprovação ao governo está em queda. As gafes e as aventuras donjuanescas berlusconianas começam a exercer certo peso sobre a opinião pública, juntamente com a crescente percepção de que o premier governa a favor de si mesmo, forçando a aprovação de leis destinadas a livrá-lo das suas pendengas judiciais. Sem contar os efeitos da crise, que não deixam de influenciar o conjunto da obra.
Só faltava que Patrizia D’Addario se prontificasse a publicar um livro. Boca no trombone. Patrizia é a escort (palavra da moda) que na noite da eleição de Barack Obama transcorreu com Berlusconi “uma noite de fogo” a bordo daquela que o próprio definiu como “a cama de Putin”, presente do presidente russo. O livro intitula-se Gradisca, Presidente para evocar uma personagem de Fellini (sempre ele) no seu Amarcord, justamente a famosa Gradisca, que se oferece ao príncipe, periodicamente hóspede do Grande Hotel de Rimini, cidade natal do cineasta. Gradisca, do verbo gradire, ou por outra, aproveite, esteja à vontade, use e abuse. Consta que no seu livro, a sair nestes dias, Patrizia conta pormenores de sua aventura para deter-se nos gostos e vezos íntimos do premier insaciável. Ou não? A verificar.
Não é que também neste campo faltem componentes de violência. O Honda de Barbara Monreale, moçoila dadivosa fotografada de lingerie no banheiro do Palazzo Grazioli, residência privada em Roma do primeiro-ministro, foi subitamente vítima de um singular processo definido como de autocombustão. Quanto a Patrizia D’Addario, denunciou junto à polícia de Bari uma série de telefonemas anônimos que ameaçam “quebrar-lhe os ossos” e o estupro de sua filha.
Segundo Patrizia, as tentativas de intimidação prosseguiram. Quatro homens em uniforme policial tentaram forçar a porta de sua casa. Outro ofereceu-se para protegê-la e em seguida tentou violentá-la. Diz ela ter-se convencido definitivamente que sua vida estava em risco quando um carro em altíssima velocidade a empurrou fora da estrada enquanto dirigia seu automóvel. “Milagre que eu tenha sobrevivido”, afirma.
Tais algumas antecipações de Gradisca, Presidente. Diz a história com H grande que uma das razões da decadência do Império Romano foi também a licenciosidade dos costumes. Deste ponto de vista, a Roma de Silvio Berlusconi, embora não passe de caricatura, não brinca em serviço.