Não bastassem os entreveros entre Álvaro Uribe e Hugo Chávez, a história se repete entre o peruano Alan García e a chilena Michelle Bachelet, com um tom de farsa ainda mais evidente.
O governo peruano prendeu um suboficial acusado de vender informações secretas ao Chile. A acusação, mesmo negada pelo governo chileno, não pode ser descartada, dada a excessiva autonomia das forças armadas chilenas legada por Pinochet. Mas García a inflou muito além do razoável, apelando com uma retórica grosseira à tradicional xenofobia antichilena das massas peruanas, herdada da Guerra do Pacífico (1879-1884).
Após cancelar encontro com Bachelet em Cingapura e chamar para consultas o embaixador no Chile, o presidente peruano classificou o país vizinho de “republiqueta” e seu comportamento de “repulsivo”, atribuindo-o à “inveja” chilena do crescimento econômico peruano.
Os peruanos mais sensatos devem estar constrangidos. A economia e os indicadores sociais do Chile são notoriamente superiores. Com meros 27% de respaldo, García é um dos governantes mais rejeitados do continente, enquanto Bachelet, apoiada por 78%, está (ao lado de Lula) entre os mais populares. O propósito evidente de García, como o de Uribe e Chávez, é abafar o descontentamento interno com o patriotismo dos tolos, ao custo de prejudicar a unidade cada vez mais necessária do continente.