Esnobado por Aécio Neves durante a semana em que convidou com todas as letras o governador mineiro para ser seu vice, e às vésperas de assumir, querendo ou não, a candidatura a presidente, José Serra tem pela frente o desafio de demonstrar a eficácia da estratégia que monta para si próprio. Dentro do PSDB, muitos ainda têm dúvidas – não de que o governador de São Paulo será candidato, mas que acerte nas suas escolhas. Principalmente em deixar para se anunciar presidenciável à última hora, quando está em quedas nas pesquisas e Dilma Rousseff cresce.
Na segunda 1º, o mineiro Aécio chegou a fazer troça da pretensão do paulista de reeditar o velho café-com-leite da política nacional com uma chapa de tucanos. “Sou mestiço. Como vou participar de uma chapa puro-sangue?”, ironizou. Em conversas reservadas, Aécio vinha dizendo, desde dezembro, quando assumiu sua candidatura ao Senado, que a decisão de não ser vice de Serra está tomada e que não se trata de barganha para garantir um futuro ministério, por exemplo. “Às vezes, em política, por incrível que pareça, as coisas são exatamente como parecem”, declarou a um amigo.
Em dois encontros públicos com o governador de São Paulo, em Brasília e Minas, Aécio Neves voltaria a afirmar sua disposição de não aceitar a Vice-Presidência. “Não cogito essa possibilidade, não cogito”, declarou, na quarta-feira 3, ao comparecer, na capital federal, à sessão solene do Congresso em homenagem ao centenário do ex-presidente Tancredo Neves. Citando o avô, Aécio rejeitou a pressão dos colegas de partido. “Vou repetir Tancredo: empurrado eu não vou.”
O presidente do PSDB em Minas, deputado federal Narcio Rodrigues, chegou a declarar à revista eletrônica Terra Magazine que Aécio “não é estepe”. O jornal Estado de Minas também publicou um editorial sob o título “Minas a reboque, não”, em que exalta o governador a rejeitar o “papel subalterno” que lhe oferecem lideranças políticas (leia-se Serra) “temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação”.
Durante a inauguração da Cidade Administrativa, que também homenageia o ex-presidente Tancredo em Belo Horizonte, na quinta-feira 4, Aécio acabaria saudado aos gritos de “presidente!” vindos da plateia, diante de José Serra. Novamente, voltou a exibir desinteresse em compor uma chapa com o colega, ao dizer que não voltará atrás na decisão que tomou. “Todos nós temos as nossas convicções e eu sou um homem de convicções. Eu tenho as minhas. Enquanto elas não se alteraram, eu sigo meu rumo”, afirmou. E a CartaCapital disse: “Às vezes, em política, as situações são exatamente como parecem”.
Dilma Rousseff e Lula, para desgosto do governador de São Paulo, também haviam sido convidados por Aécio para prestigiar o ato, mas não puderam ir e foram representados justamente pelo vice-presidente mineiro, José Alencar. Consta que, ainda em Brasília, o governador havia tentado tranquilizar os senadores tucanos em reunião, garantindo que, embora não aceite a Vice Presidência, vai trabalhar no estado pelo presidenciável de seu partido.
Entre o tucanato, agora é hora, para usar uma expressão do tempo do avô de Aécio, de não deixar a peteca cair. Mal o governador de Minas explicitou sua disposição de declinar do convite de Serra e os parlamentares do partido já falavam que a negativa não representa “um anticlímax”. Isto após a possibilidade de a chapa puro-sangue ter sido saudada pelo PSDB e pela mídia, na mesma semana, como a última panaceia para uma candidatura que vem, nas últimas pesquisas, deslizando serra abaixo, com perdão do trocadilho.
O governador paulista detém o controle da campanha com mãos de ferro e se mostra seguro das decisões que toma. Sonega informação dos próprios companheiros de legenda, revelando sua estratégia aos poucos, como quem alimenta pássaros, ou melhor, tucanos. Nas aparições dignas de presidenciável da última semana, Serra apenas sinalizou aos parlamentares do PSDB, ainda bastante inseguros, que enfrentará, sim, o pleito de 2010 contra Dilma. Mesmo porque não lhe resta outra saí-da. Se desistir agora para agarrar uma reeleição tida como certa a governador, colará sobre si a impressão de que fugiu da raia, o que colocaria em risco inclusive sua manutenção no Palácio dos Bandeirantes.
Convencido de que Lula só ganhou a Presidência em 2002, após três derrotas, por ter tomado as rédeas da campanha, Serra dá as cartas dentro do partido. “Faz parte da personalidade dele”, justifica um correligionário. Os colegas que defendem que o candidato vem caindo nas pesquisas por não haver se assumido como tal até agora foram obrigados a engolir que o governador só se lançará à eleição quando quiser. Certa ou errada, trata-se da estratégia de quem acha melhor a visibilidade garantida neste momento como governador do que como candidato.
Hoje, acredita, fica bem para sua imagem de bom administrador participar de eventos públicos como o governante do mais importante estado do País, e ponto. Foi o que aconteceu na terça 2 ao comparecer, ao lado de Dilma e Lula, à inauguração da maior fábrica de tratores do mundo, obra da Fiat em Sorocaba. Na avaliação do pré-candidato, como ainda faltam oito meses para a eleição, não é preciso pressa, porque há tempo de sobra para fazer campanha. “Serra tem seus tempos, mas não vai desistir”, afirma o deputado José Aníbal. “Serra só desistiria se tivesse certeza absoluta de que iria perder, o que não é o caso”, opina uma liderança tucana.
Enquanto os correligionários de Aécio e outros políticos do PSDB e do aliado DEM consideram que Serra cometeu um erro e deixou espaço para o crescimento da ministra da Casa Civil, os serristas fiéis acham a decisão acertada. “Mais para a frente, quando formos comparar quem é melhor administrador, se ele ou Dilma, vai pesar quem fez campanha antes da hora”, diz o líder do partido na Câmara, João Almeida. Ao contrário do que parece, segundo os aliados de Serra, o tucano não está entrando no jogo como quem vai para o sacrifício, mas como quem ainda crê ter fortes chances de ganhar a disputa.
Ninguém menos que o presidente Lula cuidou espertamente de afirmar que é cedo para pensar no vencedor de outubro. “A performance de Dilma está boa, mas o jogo não está definido. O jogo está começando e está bom. Há um certo equilíbrio”, afirmou o presidente, para quem a campanha só se inicia de fato com o horário gratuito de televisão, em agosto. Mesmo assim, quem sabe sorria debaixo dos bigodes. Os tucanos admitem depositar a esperança de voltar a ver crescimento na candidatura de Serra após o programa de tevê do PSDB, em maio, quando darão início à estratégia de comparar administrativamente Dilma e o governador paulista, em lugar de curvar-se à ideia plebiscitária do confronto Lula-FHC.
“O eleitor tem demonstrado nas pesquisas que quer continuidade, mas também quer segurança. Serra transmite a segurança de que é um cara que sabe enfrentar problemas”, diz o deputado tucano Jutahy Júnior. “O eleitor também respeita um candidato que tem carreira política. Dilma nunca disputou nada.” A ideia que vai nortear a campanha do PSDB na televisão, em um cronograma de mídia eletrônica montado a partir da desincompatibilização de Serra, é a pretensa “imperícia” da ministra da Casa Civil contra a imagem de executiva que o governo lhe quer impingir. “Que mãe do PAC que nada. Vamos mostrar que é no máximo madrasta”, alfineta outro parlamentar do PSDB.
O presidente alerta os petistas e aliados do risco de salto alto. “É uma grande bobagem pensar que uma pesquisa deixa um candidato com medo, oito meses antes da eleição. Ninguém consegue fazer presidente por antecipação”, afirmou Lula.
CartaCapital ouviu um especialista em eleições que repetiu avaliação idêntica à de Lula. Do alto de seus 20 pleitos disputados, alguns ganhos e outros perdidos, o ex-prefeito, ex-governador e atual deputado federal Paulo Maluf opinou que a eleição deste ano só começará depois da Copa do Mundo. “A oito meses da eleição não se tem uma visão de quem vai ganhar ou perder. O Serra não tem razão nenhuma para desistir”, diz Maluf, e cita o exemplo de Gilberto Kassab, que estava em terceiro lugar na disputa em 2008 e levou a prefeitura, para posterior arrependimento dos paulistanos.
O mentor de Celso Pitta nega, aliás, comparações maldosas entre ele e Dilma Rousseff, apelidada, como aconteceu com o falecido prefeito, de “poste” de Lula. “A Dilma está se mostrando uma gerente muito competente, é uma mulher sofrida, tem caráter. O Pitta... não entendeu o projeto”, argumenta. Outro exemplo citado por Maluf de favoritismo nas pesquisas desmentido posteriormente pelas urnas é o seu próprio, derrotado por Mário Covas em 1998 ao governo quando era franco favorito. “Quatro dias antes da eleição o Covas estava perdendo, no entanto, ganhou de mim”, afirma, cabisbaixo e algo inconformado até hoje.