Confira aqui a galeria de fotos de Luana Lila, mostrando a trágica situação dos moradores de Atibaia
Após duas décadas navegando pelo rio Atibaia, no interior de São Paulo, José Milton da Mota, 60 anos, jamais imaginou que encontraria obstáculos na lide com o remo. Hoje, contudo, tem dificuldade para completar trajetos curtos sem esbarrar o casco do barco de alumínio nas muretas e calçadas submersas do Parque das Nações, um dos bairros mais castigados pelas inundações em Atibaia, a 67 quilômetros da capital. “No rio, é mais fácil navegar. No máximo, encontro galhos de árvores”, comenta o barqueiro, que agora auxilia a equipe da Defesa Civil a transportar os moradores pelas ruas alagadas do bairro.
“Moro há 35 anos do lado deste rio e nunca vi uma enchente como essa. Choveu bastante, mas o povo está mesmo desconfiado é com essa história das comportas”, comenta Seu Zé, como é conhecido, ao completar mais um dos seus tours pelas residências ilhadas. O barqueiro refere-se à confusão envolvendo as comportas de três barragens: as que alimentam dois reservatórios de água da Sabesp (Piracaia e Nazaré) e a da represa de uma pequena usina da cidade, em reforma para voltar a gerar energia elétrica após mais de 15 anos desativada.
O prefeito José Bernardo Denig (PV) cobra explicações da Sabesp sobre o manejo das descargas de água por suas represas rio acima, hoje num volume dez vezes superior à média prevista para o verão. Boa parte da população atingida pelas cheias acredita, porém, que a central hidrelétrica, concedida pela prefeitura a um grupo de empresários, também contribui para manter a área alagada, que atinge ao menos 900 famílias. Movido por essa desconfiança, um grupo de 30 moradores de bairros de classe média entrou na usina, na tarde da quarta-feira 27, para forçar a abertura de uma comporta fechada para manutenção. “A ação foi irresponsável e autoritária. Esse grupo invadiu a usina e ameaçou os funcionários. Vieram abrir a comporta na marra”, afirma o engenheiro José Ribeiro Bueno, responsável pela usina. “Por imperícia, essa manobra poderia ter causado um grave acidente, como a inundação de áreas vizinhas ou o comprometimento da estrutura da própria barragem.”
Morador do Parque das Nações, o comerciante Harold Chaves, 48 anos, nega que os manifestantes sejam invasores. “Visitamos a barragem ao lado de três vereadores e constatamos que uma das comportas estava fechada. Veja o absurdo: a população vivendo debaixo d’água e a barragem represando água na cidade para gerar energia para meia dúzia de indústrias”, diz Chaves. “Mas não houve ameaças. Os funcionários aceitaram abrir uma frestinha da comporta. E o que aconteceu? A água baixou. Na minha rua, cedeu ao menos meio metro.”
Tão logo a notícia da abertura da comporta percorreu a cidade, começaram a surgir manifestações de apoio e de repúdio à ação. Os moradores do condomínio de luxo Shambala 2, por serem vizinhos da represa, ficaram receosos de que o aumento da vazão pudesse inundar suas casas. “O campo de futebol e uma quadra de tênis já estavam alagados, aí o pessoal ficou com um pé atrás”, diz Clóvis Aparecido do Carmo, 33 anos, supervisor de segurança do condomínio. “Como a água não subiu, eles ficaram mais tranquilos.”
A reportagem entrou em contato com seis moradores do condomínio, nenhum deles quis falar. “Já veio muita gente aqui perguntar sobre isso, acho que eles não querem alimentar a discussão”, especula Clóvis. Morador do Parque das Nações, o supervisor de segurança festejou, no entanto, a abertura da comporta. “Minha casa também inundou e, depois que eles abriram essa passagem, o alagamento reduziu uns 50 centímetros no mesmo dia. Só pode ser por causa da comporta, né?”
A prefeitura garante que não. Divulgou os relatórios de dois engenheiros descartando a possibilidade de a usina interferir nas áreas de alagamento. A justificativa é que a represa está a 8 quilômetros das áreas- inundadas e abaixo do nível do rio no ponto de transbordamento. “Os bairros inundados são áreas de várzea, que não enchiam há um bom tempo, porque as represas do Sistema Cantareira reduziram o volume de água do rio Atibaia. A prefeitura não deveria, mas autorizou a ocupação dessa área na década de 70. Só que nos últimos meses choveu três vezes acima da média”, afirma o prefeito Denig.
Apesar dos riscos da abertura forçada das comportas, a polícia não foi acionada para conter a ação. “Optamos por agir com diplomacia, na política da boa vizinhança”, explica José Bueno, responsável pela usina. “Foi uma atitude desesperada do povo. Só não entendo o que os vereadores foram fazer lá.” O presidente da Câmara Municipal de Atibaia, Wanderley Silva de Souza (PDT), não se mostra arrependido de ter acompanhado o grupo. “Os técnicos da prefeitura dizem que a usina não interfere nos alagamentos, e eu respeito isso. Mas não dá para ignorar os relatos de moradores que viram a inundação secar após a abertura da comporta”, diz o vereador, que integra a base governista.
Para o prefeito, a questão relacionada às comportas é outra: “Se havia previsão de fortes chuvas, não seria o caso de começar a despejar as águas das represas da Sabesp um pouco antes, para evitar uma descarga tão concentrada agora?” O Comitê das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, responsável pela gestão do Sistema Cantareira, acredita que sim. E afirma ter comunicado a Sabesp em 2 de outubro sobre a necessidade de fazer descargas preventivas.
De acordo com Hélio Castro, superintendente de Produção de Água da Sabesp, a empresa precisava garantir o abastecimento da Grande São Paulo. “Os reservatórios estavam pela metade até o início de novembro”, afirma. “De qualquer forma, a vazão que chega a essas represas é muito superior à da água liberada pelas comportas. Sem as represas, seria muito pior.”
Morador do condomínio Santa Mônica, ilhado pela inundação, o vendedor Marcelo Martins, 46 anos, critica a postura das autoridades. “Esse jogo de empurra não termina nunca. Somente a Defesa Civil aparece por aqui, e para pedir a nossa saída. Muitos vizinhos já foram para a casa de parentes.” Quem não quer sair de perto da casa inundada mora de improviso em escolas públicas. “Meus filhos mais novos, de 9 e 11 anos, estão na casa da minha cunhada. Mas devem voltar para cá hoje. A saudade bateu”, conta a dona de casa Joelma da Silva Souza, 45 anos, na proa do barco remado por Seu Zé.