O paradoxo do abolicionista
22/07/2010 17:21:39
Renato Pompeu

Gonçalves Dias, o poeta na contramão, de Wilton Marques, Ed. EdUSCar, 280págs., R$ 39
Poderia o poeta maranhense Gonçalves Dias (Não chores, meu filho/ não chores, que a vida/ é luta renhida/ viver é lutar), que em plenos meados do século XIX só podia sobreviver como alto funcionário público de um governo imperial brasileiro sustentado pela escravidão, lutar pelo abolicionismo? Não só podia, como, efetivamente, depois de muitas hesitações, divulgou textos que guardou durante anos antes de atacar publicamente o sistema escravista.
Essa é a resposta do professor de Literatura da Universidade Federal de São Carlos (SP) e da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em Araraquara (SP), Wilton José Marques, no livro Gonçalves Dias, o Poeta na Contramão – Literatura & escravidão no romantismo brasileiro, publicado pela editora da Universidade Federal de São Carlos. A obra, muito bem documentada, retrata como, durante o Império, e na verdade até meados do século XX, o intelectual brasileiro típico pertencia à parentela pobre da oligarquia agrária, de cujos favores dependia para obter algum cargo público que lhe assegurasse um sustento mais digno. Isso criava um dilema permanente, pois o intelectual sempre tem uma vocação crítica a que, nessa situação, não podia dar vazão. Para Gonçalves Dias, essa contradição era tão aguda que ele foi levado a se arriscar.
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