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Cultura
FECHAR Orlando Margarido, de Brasília

Tempos de Gloria

27/11/2009 13:35:14

Orlando Margarido, de Brasília

O professor de teatro vetou. Daniel Filho descartou. Se dependesse do nariz torcido desses e outros luminares, Marisa, Maria de Fátima, Ana Terra, Maria Moura e as atuais Baby e dona Lindu poderiam ainda existir, mas quem sabe se permaneceriam. Contudo, lá estão na memória da tela pequena e agora ampliadas no cinema, essas mulheres rebeldes, valentes, vilãs e generosas valorizadas por um só rosto que não se impõe pela beleza espetacular, mas é iluminado e de uma capacidade de transformação admirável. Foi pouco batizá-lo com o simbólico nome de Gloria e, por isso, ainda mereceu os complementos Maria e Cláudia, homenagem a outras bravas mulheres de outrora da família. 

Para o público, apenas Gloria Pires, econômica assinatura artística que vale muito desde o fim dos anos 70, quando a estreante de 6 anos de idade passa à adolescência sob o olhar do espectador, surpreso com o talento precoce. Sua carreira a partir daí torna-se uma prova de amor e resistência no meio comumente marcado pela perenidade. Universo esse rejeitado por certa parcela intelectual, mas adorado pela audiência, que soube seguir a atriz da televisão para as salas de cinema, quando assim lhe foi conveniente. Para Gloria, pouco afeita a análises complexas, sua trajetória se justifica pelos tempos certos. 

O mais antigo desses tempos é o da telenovela, que ela conhece e doma muito bem há pelo menos três décadas. O mais novo, no entanto, ainda é envolto em mistérios e peculiaridades com os quais tenta se acostumar. Trata-se do tempo cinematográfico, diz ela repetidas vezes na entrevista realizada durante o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, encerrado na terça-feira 24. Gloria participou da mostra duplamente como a mãe Lindu de Lula – O filho do Brasil, filme-evento de Fábio Barreto, que ela socorreu com empenho modelar, e como a insegura e ansiosa Baby de É Proibido Fumar, personagem pela qual ganhou o prêmio de melhor atriz, primeiro reconhecimento no cinema. Nesta comédia dramática pontuada de humor negro, projeto de caráter independente da paulistana Anna Muylaert, considerado o melhor filme da edição, surge quase uma não Gloria, sem o glamour da figura televisiva e os inevitáveis, mesmo para ela, tiques teimosos da teledramaturgia.

Exagero dizer que estaria nascendo dessas experiências uma nova persona, já que par a par sua trajetória também se acomodou cedo ao cinema, quando o próprio Barreto lhe proporcionou a estreia em Índia, a Filha do Sol, em 1981, parceria reiterada treze anos depois com O Quatrilho. Convites sempre houve, garante ela, que vê na fragilidade dos roteiros de um período da produção brasileira o motivo da falta de entusiasmo. Procurava uma história válida por si, independentemente de ser filmada. 

Sem nunca esquecer sua origem profissional, ela manteve-se atenta às exceções, caso de Memórias do Cárcere (1983), de Nelson Pereira dos Santos. Mas Gloria concorda que a presença na tela grande se intensificou desde 2006 com os dois títulos Se Eu Fosse Você, recordistas de bilheteria, até porque desdobramentos da alma televisiva. O detalhe desafiador, lembra ela, foi a simultaneidade dessas produções. “Jamais teria planejado isso tudo junto, pois o cinema tem outra conjuntura, o tal tempo cinematográfico, que ainda é difícil entender”, alega. “Está longe do cotidiano sabido das novelas, de estrutura programada, que se domina.” 

Gloria, que literalmente engatinhou nos estúdios de rádio e tevê, não exibe um vinco de contrariedade ou tédio ao comentar sobre essa ladainha por vezes maçante da teledramaturgia. Ao contrário, seus grandes olhos negros se abrem ainda mais e as marcantes sobrancelhas se arqueiam para tratar com orgulho da linguagem da qual soube tirar proveito a seu favor. Um aprendizado que veio inicialmente de casa, onde a menina se acostumou à atmosfera liberal proporcionada pelo pai, o ator e humorista Antônio Carlos Pires, e pela mãe Elza, uma mistura equilibrada de dona de casa, companheira profissional e produtora do marido, ambos já falecidos. “Ela foi a minha Lindu, dedicada e preocupada comigo e minha irmã, e muito correta.” 

Certa vez, conta, ficou doente e a mãe a obrigou a ir até a escola para que ficasse claro não se tratar de um fingimento. Era necessário, pois Gloria dava seus primeiros passos na carreira. É nesse contexto que ela ouve as duas primeiras negativas que abalariam a ingenuidade da infância. A primeira veio de Daniel Filho, colega de seu pai, quando este sugeriu Gloria para um teste na novela O Primeiro Amor. Filho a reprovou, mas a vocação ficou clara com a decisiva estreia na novela Selva de Pedra, em 1972, com 9 anos de idade. 

Ao sucesso crescente, impõe-se o dilema de conciliar profissão e estudo. Submetida a um conselho de professores para que seguisse aulas particulares e apenas prestasse os exames obrigatórios, Gloria recebe passe livre de todos os docentes, exceto do professor de teatro. “Irônico”, diverte-se. Não se tem notícia das possíveis reflexões posteriores desse mestre de olhar enferrujado. Quanto a Daniel Filho, parece penitenciar-se da gafe com frequentes escalações da atriz para novelas e filmes por ele dirigidos, como A Partilha (2001), O Primo Basílio (2007), além do serial Se Eu Fosse Você.

Assim como o diretor e produtor, outros como o autor Gilberto Braga também motivaram Gloria na decisão de se bancar atriz. Não sem crises sérias. Pela idade ainda imatura que se lançou no ofício, ela chegou a se afastar das câmeras por um ano. “Foi sofrido, ficava com a boca seca e medo só de pensar em atuar.” Mas persistiu. Em 1978 interpretou Marisa, a adolescente problemática de Dancin’Days, primeira de uma bem-sucedida parceria com Braga. No ano seguinte, nem sequer finaliza os capítulos de Cabocla, devido a um estresse. Em seu lugar, entra uma amiga de grande semelhança física. “Cheguei a ficar traumatizada com o cheiro do estúdio, das máquinas, dos cenários, da tinta.” 

Assume, no entanto, toda a responsabilidade pela escolha de prosseguir na carreira. “Sempre fomos muito bem orientadas em casa”, reitera. “Se apressei um pouco as coisas no início, depois passei a respeitar o tempo e tudo deu certo.” Ganhou, claro, a teledramaturgia em momentos hoje referenciais como a vilã Maria de Fátima de Vale Tudo, e o formato de minissérie, então tímido, com O Tempo e o Vento (na saga inicial de Ana Terra), e O Memorial de Maria Moura. 

Atualmente Gloria vive um antigo sonho que também veio no tempo certo. Passa temporada de um ano em Paris com o marido e músico Orlando Morais, que grava um CD, e os três filhos do casamento. É da união anterior com Fábio Jr. que surgiu a terceira geração artística da família. Para a filha Cléo Pires, com quem contracena em Lula, Gloria está agora no tempo de dar conselhos, como sua Lindu.

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