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Cultura
FECHAR Rosane Pavam

O livro é um espelho

24/04/2009 18:00:56

Rosane Pavam

O maranhense Luiz Costa Lima é um crítico de literatura brasileira incomum, um dos maiores que o País tem. Mas, aos 72 anos, o estudioso das letras nacionais raramente encontra tempo, ou talvez espaço, para costurar suas reflexões em ensaios jornalísticos. Costa Lima toma a sério a necessidade de olhar o passado para compreender quem somos no presente ficcional. Essas necessidades que levam a outras lhe roubam anos de pesquisa nas bibliotecas precárias do Brasil. Ele passou dois anos para escrever O Controle do Imaginário & A Afirmação do Romance (Dom Quixote, As Relações Perigosas, Moll Flanders, Tristram Shandy), um monumento da crítica que a Companhia das Letras (400 págs., R$ 57) lança agora.

É um livro e é um espelho. Nele, Costa Lima quer entender como o escritor toma para si o controle do que imagina. “Eu achava que nós, brasileiros, éramos os mais dominados nesse aspecto, mas mudei de ideia ao olhar o que acontecia na Europa, desde o Renascimento”, ele diz por telefone, de sua casa no Rio. “Durante aquele período, como exemplo, havia uma cartilha dos cardeais para explicar o que poderia ser retratado pelos artistas em seus quadros. E eles criavam, mesmo com os limites impostos.” No Brasil do século XIX, sustenta o crítico, éramos mais livres do ponto de vista da imaginação, embora, sob alguns aspectos, nossa arte se apresentasse menos exuberante, observaria um leitor.

Essa história de buscar os mecanismos de controle faz muito sentido, explica Costa Lima, que desenvolveu o tema também em livros anteriores, pela Topbooks. No Ocidente, quando o escritor decidiu liberar seu mundo íntimo, iniciou um gênero literário, o romance. O Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, é o ponto de partida do crítico. Isto parecerá inusual a muitos que estudam a literatura nesta porção de mundo. Para estabelecer no Quixote do século XVII um marco, Costa Lima teve de contestar teóricos importantes, como o inglês Ian Watt, para quem o romance só nasceu para transcriar a vida real, e o russo Mikhail Bakhtin, que entendia o gênero como destinado a descrever o mundo representado por uma nova classe social.

No novo livro, o brasileiro fala a seus contemporâneos de maneira ousada. A pergunta rondará o leitor. Terá o romance nascido antes do advento burguês e, ainda por cima, terá sido fundado em paródia, como o texto de Miguel de Cervantes, que desanca as narrativas de cavalaria? A julgar por Luiz Costa Lima, gentleman que fala pacientemente, o humor do Quixote o favoreceu. A Igreja só aceitaria que um gênero “menor”, com o qual classificava o texto de Cervantes, zombasse das instituições e revelasse o estranho mundo interior do protagonista. 

*Confira a íntegra desta reportagem na edição impressa

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