No primeiro ensaio, a cena durou seis minutos. Leon Hirszman (1937-1987), com o livro S. Bernardo nas mãos, olhou para os atores e avisou: havia apenas quatro minutos de rolo. “Ensaiamos umas seis horas, até conseguirmos fazer a cena em quatro minutos. Aí o Leon mandou rodar. Se alguém errasse, seriam dias até chegar outro filme do Rio. Ninguém errou”, conta, 37 anos depois, o ator Othon Bastos, protagonista de S. Bernardo, rodado em Viçosa, interior de Alagoas, em 1971.
“Aprendemos a usar a escassez a favor do filme. Havia dez refletores. Um dia, o eletricista fez uma ligação errada, e pronto, sobraram cinco. Destelhamos as casas, usamos a luz natural”, relata o fotógrafo Eduardo Escorel, um dos responsáveis pelo resgate da obra de Hirszman. “Claro, teve gente que não agüentou. Me lembro do continuísta que fugiu. Ele pegou o único ônibus que passava na cidade, acho que às 5 da manhã, e desapareceu.”
É o resultado dessa aventura que retornará à tela grande na noite da terça-feira 18. S. Bernardo, adaptação do romance de Graciliano Ramos (1892-1953), abrirá o Festival de Brasília. Ver esse filme é aproximar-se de uma obra única, marcante. Conhecer sua história é andar pelos caminhos tortuosos do cinema brasileiro e, claro, do próprio País. “Era um filme de resistência. Quem ficou tinha um compromisso ideológico”, diz Escorel. “Estávamos todos ligados por uma crença política”, emenda Bastos.
Filho de judeus poloneses, comunista desde a adolescência, Hirszman enquadrou o cinema a partir de um ponto de vista político e ideológico. Foi em pleno AI-5, após levar o livro S. Bernardo para uma viagem ao exterior, que decidiu produzi-lo. “Diante desse quadro foi quase um suicídio. Talvez tenha sido mais um ato de coragem que um suicídio. Para mim, S. Bernardo significou uma resposta à impossibilidade de se fazer cinema voltado para a realidade social do País”, diz no livro É Bom Falar, uma autobiografia póstuma, construída a partir de declarações que dera no correr da vida.
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