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Cultura
FECHAR Nirlando Beirão

A rainha do marketing

27/06/2008 17:22:44

Nirlando Beirão

A gente ainda não se contentou em fazer da vida contemporânea um desfile de celebridades. Ansiosamente, a sociedade do espetáculo se volta também para o passado e tenta reescrever a história em moldura de star system, com excesso de glitter e glamour. Hollywood sempre deu sua mãozinha. O que seria de Cleópatra se não fosse Liz Taylor? 

A mais recente, premeditada ação de construir hoje um ícone de outrora está focada na duvidosa figura de Maria Antonieta, mulher de Luís XVI e rainha da França (1755-1793). Houve a biografia de Antonia Fraser (a de Stefan Zweig, mais antiga, é melhor). Houve o trepidante filme pop-rock de Sofia Coppola. O Grand Palais, de Paris (tudo o que se diz dela parece exigir o adjetivo grand), está encerrando não uma exposição, mas a celebração hagiográfica de uma princesa tontinha, que caiu num antro de fidalgotes alienados e nos braços de um príncipe tão distante que levou quase sete anos para consumar o casamento. 

Insatisfeita, ou insaciável, como bisbilhotavam os cortesãos venenosos (“l’autre chienne”, a outra cadela, diziam dela, corruptela de “autrichienne”, austríaca), Maria Antonieta se deixou levar por afetos escandalosos, no seu Petit Trianon de Versalhes. O mais notório affair, tendo sido aquele com o garboso cavaleiro sueco Axel Fersen – que resultou em dilaceradas cartas de amor que a atual mostra em Paris reproduz sem nenhum pudor. 

A França nunca a engoliu. Ela era coquete e fútil. Passou meses rejeitando o obrigatório retrato oficial (depois de coroada rainha, em 1775), até que se encantou por aquele exagero de rendas pintado por uma mulher: Élisabeth Vigée Le Brun. “A senhora me fez um dia de delícia”, agradeceu-lhe a rainha. Quando, mais tarde, a intragável austríaca chegou ao pico do que se chamaria hoje de crise de imagem, eis que de novo surge em seu socorro – convocada pelos marqueteiros da Corte – a figura de Mme. Le Brun. 

O poder – já se sabia – é o império da aparência. Aí, a febril Maria Antonieta deixou retratar-se, em enlevo doméstico, com os filhos. Caseira, manuseava rosas. Era uma flor de dedicação familiar. Pode ser que as imagens ilusórias de Elisabeth Le Brun, marqueteira avant la lettre, tenham produzido algum efeito. Mas a realidade sempre se impõe. Em 1775, a 14 anos da Bastilha, Maria Antonieta escrevia à irmã: “Há carestia de pão, mas ainda somos aplaudidos quando vamos a Paris”. Em 1793, sair da cidadela de Versalhes custou-lhe a cabeça.

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