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Um futuro com cheiro de velho, por Marcus Rocha, estudante da UFRGS

27/07/2009 11:31:49

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Um futuro com cheiro de velho pela frente

Por Marcus Rocha, Estudante de Ciências Sociais, UFRGS (www.caraspintadasrs.blogspot.com)


Entre os dias 15 e 19 de julho, ocorreu em Brasília o 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes. Foram credenciados cerca de três mil delegados. Metade do esperado no propalado “maior Conune da história”. Patrocinado por diversos ministérios e pela Petrobras, um dos pontos altos do congresso foi o ato em defesa da empresa. A minoritária oposição criticou o atrelamento da entidade ao governo federal, cujos laços fizeram que diversos de seus integrantes saíssem em defesa de José Sarney, o presidente do Senado, apoiado por Lula, e alvo de diversas denúncias.

A União nacional dos Estudantes já participou ativamente de debates sobre os rumos da nação. Contribuiu para colocar os estudantes na linha de frente do debate público na campanha “O petróleo é nosso”. Da mesma forma quando resistiu à ditadura militar - e por causa disso foi fechada pela ditadura, que perseguiu e matou diversos de seus integrantes, incluindo um de seus presidentes, Honestino Guimarães. Em 1992, soube que era hora de sair às ruas e exigir que Fernando Collor, primeiro presidente eleito diretamente pelo povo após a ditadura militar, acossado por denúncias de corrupção, voltasse para casa.

José Sarney foi nosso último presidente indireto: apoiador da ditadura, vice de Tancredo Neves, que fora eleito pelo colégio eleitoral, falecido pouco após tomar posse. Essa postura “mais real que a do próprio rei” tomada pela direção majoritária da entidade (hegemonizada pelo PCdoB há vinte anos) é mais extrema que a da própria juventude do PT, que não se exime de fazer a crítica e a disputa internas. A única explicação plausível são os R$ 2,49 milhões, só esse ano, repassados pelo governo federal à UNE, cujos ex-diretores ocupam em massa cargos no governo. Faz opção, portanto, pela política miúda do toma-lá-dá-cá, daqueles que se aproximam do poder visando às benesses que o Estado pode garantir aos amigos do regime.

Não é possível, pelos critérios contemporâneos, chamar de democrático um país no qual as instituições não são transparentes e tratam de forma privilegiada os poderosos. Não há accountability se aqueles que são cobrados pela opinião pública ou se lixam, ou mentem, ou tranquilamente fingem não ter qualquer responsabilidade. A UNE poderia voltar a fazer a grande política de outrora, se direcionasse seus recursos financeiros e humanos para colocar os estudantes novamente no centro do debate sobre os rumos do Brasil. Se a entidade fica ao lado dos que escondem, fraudam, pulam por cima dos controles constitucionais e avançam sobre o patrimônio público, ela se torna cúmplice do que há de menos democrático e republicano na sociedade brasileira.

A União Nacional dos Estudantes dá, portanto, um passo atrás na história política do Brasil. Justo no momento em que a juventude gaúcha sai às ruas para protestar contra o governo de Yeda Crusius, recuperando inclusive o rótulo dos “Caras Pintadas” e reconhecendo a importância da atuação da entidade em 1992. Enquanto a sociedade se revolta com a existência de “atos secretos” dentro do Senado Federal, e com a existência de uma imensa máquina de influências da família Sarney, usados para proporcionar benefícios privados com recursos públicos. Quando os resultados da operação Satiagraha escancaram a existência de esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro que envolvem atores privados com tentáculos que descem fundo nas instituições políticas da nação. Quando as universidades de todo o Brasil fervem com greves, debates, ocupações e sonhos.

Nesse momento de encruzilhada, a União Nacional dos Estudantes poderia exercer um papel maior e contribuir de fato para a melhoria da vida pública brasileira mas, ao contrário, faz opção pela velha forma de fazer política, com coronéis, clientelismos, patrimonialismos e outras características que ainda marcam nossa vida política.


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