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Guilherme Felitti cobre a área de tecnologia há sete anos e atualmente escreve profissionalmente no site IDG Now!. Estuda o modelo comercial de serviços colaborativos no Brasil em sua tese de mestrado e edita o blog Chá Quente sobre inclusão digital e o mercado brasileiro de internet.

Microsoft e Yahoo: o flerte com a transparência como forma de sobrevivência

29/02/2008 17:25:17

Guilherme Felitti

Por motivos bastantes distintos, duas gigantes da tecnologia que tiveram seus caminhos cruzados neste mês anunciaram iniciativas surpreendentes que flertam com maior transparência em suas atividades durante a última semana.

A primeira foi a Microsoft. Em anúncio com toda a pompa que o presidente Steve Ballmer e o chief software architect Ray Ozzie pede, a gigante de software anunciou que mudaria radicalmente sua postura de protecionismo sobre informações de seus produtos e abriria, para acesso público, milhares de documentos que ajudariam desenvolvedores (rivais, inclusive) a entender como o sistema operacional Windows, o pacote corporativo Office e outras ferramentas corporativas funcionam a ponto de facilitar o desenvolvimento de complementos.

Além da documentação, a companhia se comprometeu a respeitar padrões usados comumente na internet, em uma citação explícita ao seu navegador Internet Explorer. Ao criar um padrão próprio que pouco respeitava os definidos pela W3C para reproduzir páginas e serviços, o IE se tornou sua própria vítima - em recente post no blog da equipe responsável pela oitava versão do navegador, desenvolvedores da Microsoft classificavam como "marco" o software respeitar o teste Acid2, algo já suportado por rivais de menor popularidade, como o Opera.

Por fim, a Microsoft assumiu a direção da tradicional antagonista comunidade de software livre e afirmou que criará a Open Source Interoperability Initiative para investir em pesquisas que melhorem a interoperabilidade entre seus produtos e as soluções cujo código está disponível para acesso público. Vale lembrar que, em nenhum momento, a Microsoft se comprometeu a abrir o código fonte de seus produtos.

O que parece ser um ataque fulminante de consciência do mercado de internet por uma empresa tão restritiva quanto os códigos dos seus software muda de imagem quando o contexto é aplicado. Na semana seguinte ao anúncio feito por Ballmer e Ozzie, que substituíra o fundador e multibilionário Bill Gates a partir de junho na Microsoft, a organização ISO se reúne em Genebra para dar sua palavra final sobre a guerra entre os padrões de documentos eletrônicos Open XML, da empresa, e o Open Document Format, defendido pela comunidade de software livre e empresas como IBM, Sun e Google.

A Europa é, tradicionalmente, um terreno onde as políticas de mercado da Microsoft enfrentam restrições. Foi pelas mãos da União Européia que a companhia se viu obrigada a pagar multa de 690,3 milhões de dólares e vender uma edição do Windows XP sem o software multimídia Windows Media Player após o órgão decretar que a companhia feria a lei de posição dominante do Tratado da União Européia, formando um monopólio. A companhia tentou apelar da decisão de 2004 - em setembro de 2007, a UE confirmou a multa. Além disso, na quarta-feira 27 a UE condenou a empresa de Bill Gates a mais uma multa, desta vez de 889 milhões de euros.

Caso perca, a Microsoft estará numa situação inédita: impossibilidade de usar seu poder de mercado para transformar tecnologias próprias em padrões, terá que adaptar o pacote corporativo Office ao Open Document Format caso queira que governos com contratos de licenciamento ou empresas sem acordos exclusivos continuem a usar os softwares corporativos respeitando a decisão da ISO.

A segunda foi o Yahoo. Acuada com a oferta de compra não requisitada da Microsoft avaliada em 44,6 bilhões de dólares, preço 30% maior que o valor de todas as ações do buscador no dia anterior à proposta, a empresa criada por Jerry Yang e David Filo parecia fadada a ser engolida pela gigante de software após ver o Google, uma antes ameaça descartável, dominar o mercado de buscas, o que lhe deu de bandeja a participação majoritária na publicidade online.

O Yahoo teve chance de comprar o Google em 2002. O então CEO Terry Semel ofereceu 3 bilhões de dólares pelo serviço potencialmente devastador, mas sem modelo de negócios fechado ainda. O Google descartou - três anos depois, com suas ações indo dos iniciais 85 dólares para cerca de 300 dólares menos de um ano depois, o que dava valor de mercado de mais de 12 bilhões de dólares à empresa de Sergey Page e Larry Brin.

Assim como havia feito o Google, o conselho do Yahoo descartou a oferta. Entre os meandros de uma guerra que a Microsoft faz para convencer os acionistas do buscador que a compra é benéfica, o que traz uma hostilidade sem tamanho para o negócio, o Yahoo anunciou, meio que timidamente, que abrirá sua busca para desenvolvedores, primeiramente para a sofisticação dos resultados listados sempre que você digita a palavra que quer e digita Enter.

Nada impede o Yahoo de ir mais fundo e embarcar na radicalidade de permitir que os próprios usuários mexessem no algoritmo de busca do Yahoo Search, algo que Erick Schonfeld já havia descrito no TechCrunch antes do "Não" à Microsoft.

Os riscos são muitos - como estão por trás das plataformas de publicidade online, os algoritmos determinam a ordem de resultados (editoriais ou comerciais) e, portanto, qual anunciante tem que pagar mais ao buscador. Qualquer um com interesse próprio no seu resultado poderia tentar interferir neste delicado balanço.

Não deixa de ser uma idéia, contudo, a ser considerada por um antigo gigante da internet que já foi símbolo de internet (lembra do "Do you Yahoo?" nos anos 90?) e hoje rebola para não ser engolido, de uma maneira nem um pouco agradável, pela Microsoft.

Fora da história, Steve Jobs já se confessou um fã fervoroso de Bob Dylan. Se gostar de folk, Jerry Yang pode estar neste momento tomando coragem nos versos de "quando você não tem nada/você não tem nada a perder" de "Like a Rolling Stone".

Guilherme Felitti

Capital Digital

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